Make your own free website on Tripod.com

Cleusa dos Santos
Reforma/Revolução - pólos de tensão na constituição do movimento socialista

Tese apresentada ao Programa de Estudos Pós-Graduados em Serviço Social da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, sob a orientação do Prof. Dr. José Paulo Netto, como requisito parcial para obtenção do título de Doutor em Serviço Social.
                			São Paulo, março de 1998




Resumo
A presente tese de doutoramento, resultado de uma investigação de natureza bibliográfico-documental, tem por objeto as polêmicas, que acompanham a constituição do moderno movimento socialista, centradas na problemática reforma/revolução. Tais polêmicas foram tematizadas no período 1848-1917, espaço histórico balizado por duas revoluções que infletiram profundamente os rumos do movimento socialista. A perspectiva de análise - identificada explicitamente com o que se pretende a abordagem revolucionária derivada de Marx - privilegiou a documentação vinculada às críticas às posições reformistas, mas à base da hipótese de que estas incidiram no desenvolvimento da própria elaboração revolucionária.
Formalmente, a estrutura da tese, para além de uma apresentação geral, compreende uma introdução, três capítulos e uma conclusão. Se, na apresentação, expressa-se a natureza dos interesses da investigação, a  hipótese-diretriz e se esboça o quadro da confecção da tese, na introdução argumenta-se a relevância da temática no âmbito das preocupações teórico-acadêmicas do Serviço Social. No primeiro capítulo, a exposição volta-se para as condições da gênese do movimento socialista e suas raízes na Modernidade e nos desdobramentos da Ilustração. O segundo capítulo procura elaborar uma síntese crítica do trato teórico-metodológico com que Marx posicionou-se em face da referida tensão. O terceiro capítulo pesquisa como tal posicionamento foi explorado, desenvolvido e problematizado no marco da Segunda Internacional. As páginas apresentadas à guisa de conclusão, enfim, resgatam os núcleos constitutivos da polêmica e restituem os requisitos para que se ultrapasse a disjuntiva entre reforma e revolução.
 
Résumé
La présente thèse de doctoract, résultat d'une investigation de nature bibliographique documentaire, a pour objet les polémiques qui accompagnent la constitution du mouvement socialiste moderne, centrés sur la problématique réforme/révolution. Ces polémiques ont été mises en thème sur la période de 1948 à 1917, espace historique balisé par deux révolutions qui ont infléchi de façon profonde la route du mouvement socialiste. La perspective d'analyse explicitement identifiée avec ce qui prétend être l'approche révolutionnaire dérivée de Marx - a privilégié la documentation liée aux critiques faites aux positions réformistes, mais en se fondant sur l'hypothèse que ces positions ont influencé le développement de l'élaboration révolutionnaire elle-même.
Formellement, la structure de la thèse, au delà d'une présentation générale, comprend une introduction, trois chapitres et une conclusion. Si, dans la présentation, sont exprimés la nature des intérêts de l'investigation, l'hypothèse directrice et ébauché le tableau de la confection de la thèse, dans l'introduction, on argumente sur l'importance de la thématique dans le domaine des préoccupations théoriques-académiques du Service Social. Dans le Chapitre Premier l'exposition se penche sur les conditions de la genèse du mouvement socialiste et ses racines dans la modernité et dans le déploiement de l'illustration. Le Chapitre II  cherche à elaborer une synthèse critique du traitement théorique méthodologique avec lequel Marx a pris position devant la tension mentionnée. Le Chapitre III recherche comment cette prise de position a été explorée, développée et mise en problématique dans le cadre de la Deuxième Internationale. Les pages présentées à titre de conclusion, récupèrent, enfin, les noyaux constitutifs de la polémique et restituent les conditions pour le dépassement de la disjonction entre réforme et révolution.














"Mas a revolução é profunda. Ainda está passando pelo purgatório. Executa metodicamente sua tarefa [...]. E quando tiver concluído [...] seu trabalho preliminar, a Europa se levantará de um salto e exclamará exultante: Belo trabalho, minha boa toupeira!"
                            
                                                                                  Karl Marx















À memória de
Florestan Fernandes,
pelo seu legado revolucionário. 
Sumário
Apresentação .........................................................................   09
Introdução: A dimensão política do Serviço Social e o
                   movimento socialista ......................................   18
Capítulo 1: Reforma e revolução: tensão sócio-política
                 na modernidade..................................................   41
Capítulo 2: Marx e a crítica da reforma .........................   77
Capítulo 3: Reforma e revolução na Segunda 
                 Internacional ...................................................   129
À guisa de conclusão ...........................................................   195
Bibliografia ...........................................................................   200


Apresentação
 

A tese agora apresentada, na culminação dos estudos e atividades que desenvolvi no Programa de Estudos Pós-Graduados/ Doutorado em Serviço Social da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, é mais que o cumprimento de uma exigência de natureza acadêmica. Nela abordei uma temática para a qual não me sensibilizei exclusivamente do ponto de vista acadêmico e/ou intelectual; ao contrário, o seu tratamento conforme os parâmetros universitários veio ao encontro de interesses e preocupações originalmente de natureza pessoal, inscritos em demandas de participação cívica e sócio-política.
Com efeito, já antes de ingressar no Doutorado, meu desempenho docente (enquanto professora vinculada ao Departamento de Serviço Social da Universidade Estadual de Ponta Grossa) combinava-se com minha participação sócio-política, seja relativa ao movimento docente, seja relativa aos movimentos cívicos e partidários que se agitavam na sociedade brasileira no quadro da construção democrática dos anos oitenta. Foi neste processo que me aproximei das posições da esquerda e com elas me identifiquei, inclusive inscrevendo-me no Partido dos Trabalhadores (PT).
Esta aproximação e esta identificação, contudo, não tinham por base uma rigorosa referência analítica dos impasses e das alternativas que se colocavam na sociedade brasileira; elas foram mais um produto de opções de natureza ético-política que qualquer outra coisa. Por isto mesmo, neste processo me defrontei com debates e polêmicas cujo alcance e significado mais profundos freqüentemente me escapavam, uma vez que um certo imediatismo, um difuso pragmatismo as enquadravam. Pouco a pouco, foi ficando cada vez mais claro, para mim, que uma compreensão teórica era necessária não só para superar questões imediatas, mas para embasar as minhas opções de fundo.
Assim, foi-se realizando a conversão de preocupações diretamente prático-políticas e pessoais em tema de reflexão mais sistemática. O ingresso no doutoramento me permitiu concretizar esta conversão, na medida em que pude constatar o significado mais amplo e mais mediato das questões subjacentes ao debate político-partidário daquele tempo. Aliás, creio que esta conversão foi um processo bastante generalizado entre os profissionais que viveram intensamente os confrontos da década de oitenta e é bastante eloqüente que este fato se expresse em produções acadêmicas, algumas elaboradas no interior do próprio Programa de Estudos Pós-Graduados em Serviço Social da Pontifícia Universidade Católica - penso, por exemplo, nos trabalhos de Abramides e Cabral (1995) e de Cardoso (1995).
Substantivamente, aquelas questões se referiam ao encaminhamento das políticas de esquerda num quadro social de constituição de uma ordem política democrática subordinada à hegemonia do capital. A conversão dessas questões em objeto de reflexão teórica mostrou-me que, de fato, as polêmicas imediatas se vinculavam a uma problemática antiga no interior da esquerda, a problemática da relação entre reforma e revolução. Mergulhei, então, no estudo desta problemática.
No entanto, meu investimento neste estudo se vinculava, igualmente, a preocupações que tinham pertinência na área profissional do Serviço Social: tanto o debate político-partidário da época envolveu expressivas parcelas de assistentes sociais quanto a própria problemática me parecia refletir-se nitidamente nos debates profissionais. Ou seja: desde que ingressei no doutorado, meu interesse por esta temática não se restringiu às suas dimensões teórico-políticas, mas incluiu a sua referência ao Serviço Social. Na tese que apresento agora, a Introdução procura evidenciar que esta referência não é algo adjetivo, revelando-se, ao invés, como uma constante na elaboração profissional de raiz crítica.
Devo expressar que meu investimento intelectual, no período do doutorado, significou para mim um esforço de grandes proporções, já que tive que preencher enormes lacunas de conhecimento histórico, especialmente no que tange ao movimento socialista e operário. Somente ao fim do meu terceiro ano no doutorado pude concretizar um "recorte" adequado da problemática, que foi devidamente dimensionado, depois, por ocasião do meu exame de qualificação (e me foram valiosas as críticas, que formalmente agradeço, dos professores doutores Maria Lúcia Carvalho da Silva e Evaldo Amaro Vieira). Com este "recorte", situei a conexão reforma/revolução praticamente entre a segunda metade do século XIX e a Primeira Guerra Mundial, e não apenas porque fosse preciso estabelecer limites ao meu objeto de estudo, mas principalmente porque este período histórico - exatamente: entre as revoluções de 1848 e a revolução de 1917 - assinalou tanto a constituição do movimento socialista moderno quanto a sua grande fratura; isto é: o período que estudo nesta tese teve seus limites determinados por fenômenos que, em si mesmos, justificam os marcos temporais que utilizei.
Em poucas palavras, meu objeto de estudo se configura a partir dos embates, no interior do movimento socialista de base operária , entre as propostas reformistas e as propostas revolucionárias. No seu tratamento, trabalhei com a hipótese-diretriz  segundo a qual reforma e revolução conformaram pólos de tensão na constituição daquele movimento: mesmo a recusa de propostas reformistas, por parte dos setores revolucionários, conduziu-os a aprofundar as suas próprias propostas; ou seja, há uma dialética entre reforma e revolução na constituição do moderno movimento socialista de base operária. Todo o desenvolvimento da minha exposição está fundado nesta hipótese.
Penso ter incorporado, no processo da minha investigação, a perspectiva de análise de Marx. Evidentemente, dada a complexidade do método marxiano, tenho consciência do muito que ainda me falta para assumir em toda a sua dimensão a herança de Marx. No entanto, o próprio fato de utilizar e subscrever - e pretendo que de modo justificado - a crítica de Marx ao reformismo explicita que meu compromisso com esta herança não é casual ou acidental.
Minha investigação se delineia como uma pesquisa de natureza bibliográfica: meu universo de referência foi a documentação relativa às polêmicas reforma/revolução, documentação primária (por exemplo, os textos de Marx ou dos interlocutores que se confrontaram no interior da Segunda Internacional) e documentação secundária - e, no caso desta última, suponho que me apoiei em autores com créditos teórico-políticos e/ou acadêmicos (entre outros, Cole, Rosemberg, Gustafsson, Hobsbawm e Löwy). Certamente que outras escolhas documentais poderiam ser feitas; o que me parece importante  ressaltar, todavia, é que todos os autores que utilizei foram efetivamente objeto de minha análise.
Na realização das minhas atividades acadêmicas para o doutorado, contei com o apoio e a ajuda de instituições e pessoas. Não seria possível registrar aqui, sem cometer omissões, todos aqueles sem os quais minhas atividades e esta tese seriam impensáveis. Mas tenho que assinalar meus débitos para com:
n	o Departamento de Serviço Social da Universidade Estadual de Ponta Grossa;
n	a CAPES, pela bolsa concedida;
n	os meus companheiros do Núcleo de Estudos e Aprofundamento Marxista (NEAM), vinculado ao Programa de Estudos Pós-Graduados em Serviço Social da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo;
n	os docentes deste Programa;
n	os companheiros que, fazendo suas pós-graduações na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, ajudaram-me com uma interlocução inteligente e instigante, com especial destaque para Maria Delta Martins;
n	Antônio Roberto Bertelli, que me facilitou o contato com uma bibliografia de difícil acesso e me disponibilizou seus materiais inéditos;
n	Jaime Giolo, que me deu a medida da solidariedade;
n	meu irmão Renato, em quem aprendi a admirar a auto-superação e o despreendimento;
n	Leila, pela convivência compartilhada;
n	José Paulo Netto, meu orientador, pelo apoio e pela amizade;
n	Carlos, companheiro desses seis anos de aventura entre a reforma, a revolução e, principalmente, de vida.  
 
Introdução:
A dimensão política do Serviço Social e o movimento socialista
 
As discussões relativas à problemática reforma/revolução parecem-me inteiramente pertinentes ao universo ídeo-teórico do Serviço Social. 
Mas esta afirmação pode ser objeto de contestação e polêmica - afinal, são várias as concepções (com as suas diversas implicações prático-profissionais) de Serviço Social e é possível argumentar que a pertinência que me parece indiscutível só tem sentido no marco de uma ou outra daquelas concepções. 
Entendo que esta reserva não é cabível e sustento, ao contrário, que, mesmo considerando a diversidade de compreensões acerca do Serviço Social, aquela pertinência se mantém; ou seja: independentemente da visão que se tenha da profissão, a esta, objetivamente, é inerente uma relação determinada com a problemática da reforma e da revolução. 
Se esta afirmação é procedente, uma investigação sobre a dialética reforma/revolução pode revelar-se fecunda e produtiva para os debates profissionais dos assistentes sociais - pretensão que justifica a nossa pesquisa. Mas é necessário fundar minimamente aquela afirmação, e este é o objetivo precípuo desta Introdução.
Desde os fins da década de sessenta - e,  não  por  acaso, isto coincide com o surgimento e o desenvolvimento do chamado Movimento de Reconceituação  -, parece supérfluo mencionar a(s) dimensão(ões) política(s) do Serviço Social. Realmente, desde então, afirmou-se uma espécie de consenso, pelo menos no plano das declarações formais, acerca do fato de que a profissão, sem prejuízo de suas (para muitos estudiosos) eventuais especificidades e particularidades, possui, imanentemente, um componente de natureza política.
Cumpre fazer notar, previamente e com a máxima ênfase, o caráter recente deste consenso, formal e explícito: ele é registrável há cerca de trinta anos, e por força de duas ordens de fatores, intimamente interligados, que referirei adiante. Antes dos anos sessenta, a afirmação de um conteúdo político qualquer no Serviço Social consistia numa quase heresia - havia como que um senso comum profissional dominante que supunha a profissão como situada acima das paixões e interesses políticos, espécie de concretização de um bem comum referido indiscriminadamente ao conjunto da sociedade, vista como um todo harmônico . Nem por isto, porém, o Serviço Social era um ente "puro", descolado das fraturas e dilaceramentos sociais; o fato de seus agentes se pensarem como interventores isentos de compromissos com interesses de classes ou grupos sociais determinados não tornava a sua prática um processo "superior" e "livre" daqueles compromissos . E por uma razão primária: o espaço profissional do Serviço Social, sendo circunscrito pela chamada questão social, impunha, independentemente da própria consciência e vontade dos assistentes sociais, um selo político ao seu fazer. 
 Esta razão, todavia, só se tornou explícita quando, no interior da profissão, desenvolveu-se uma reflexão crítica que foi capaz de elucidar os profundos compromissos e traços políticos do Serviço Social - e foi este o mérito da Reconceituação: com ela (e sem esquecer que constituiu um processo muito complexo, marcado inclusive por problemas e fragilidades) se fez possível um resgate crítico da história profissional, que pôs de manifesto a dimensão política objetiva do Serviço Social. A força deste resgate é comprovada com a existência do consenso que a ele se seguiu: mesmo os setores profissionais que recusam a Reconceituação (ou expressam grandes reservas quanto ao seu papel na história da profissão) já não são mais capazes de negar a dimensão política do Serviço Social. Antes, porém, de aprofundar este aspecto, é oportuno fazer menção às duas ordens de fatores que, na minha apreciação, são responsáveis pelo generalizado reconhecimento da dimensão política da profissão.
A primeira delas relaciona-se às transformações sócio-políticas que se desenrolaram nos anos sessenta, na América Latina e no Brasil. Estas transformações - analisadas por um conjunto de especialistas (Fernandes, 1968; Ianni, 1971; Tavares, 1972; Moniz Bandeira, 1977; Cueva, 1983; Moreira Alves, 1987; Netto, 1991) -, que envolveram praticamente todos os níveis das sociedades latino-americanas, modificaram profundamente não só a realidade social dos nossos países, mas, também, as próprias referências culturais, teóricas e ideológicas com que se analisavam os problemas latino-americanos e brasileiros. 
Expressando modificações que ocorriam em todo o mundo (Hobsbawm, 1996), as transformações que se manifestaram visivelmente na década de sessenta, na América Latina e no Brasil, alteraram notavelmente a inserção do Serviço Social no quadro das instituições públicas e privadas, repercutindo sobre a profissão em dois planos que, embora interligados, devem ser distinguidos: o das elaborações teóricas e o da prática profissional. No primeiro, desenvolveu-se o esforço para encontrar e construir referências adequadas à realidade latino-americana, rompendo-se com a "importação" de modelos e concepções gerados nos países do centro capitalista (principalmente, recusaram-se os modelos norte-americanos que, desde o pós-guerra, dominavam a profissão); no segundo, e nem sempre na mesma velocidade em que se modificava a elaboração teórica, iniciou-se a busca de "práticas alternativas", que rompessem com o paternalismo e o assistencialismo até então proeminentes no Serviço Social.
Os impactos desta primeira ordem de fatores, aqui referida muito brevemente , sobre a profissão constituem, como se sabe, o patamar de arranque da Reconceituação. Mas esta só se compreende, ainda que em seus elementos mais gerais, se conectada à segunda ordem de fatores que nos interessa realçar: trata-se, também nos anos sessenta, das grandes transformações que se verificam no universo das ciências humanas e sociais latino-americanas e brasileiras, transformações que rebatem decisivamente sobre o Serviço Social .
Os anos sessenta são, para as ciências sociais latino-americanas e brasileiras, um marco no sentido do surgimento e do desenvolvimento de uma série de vertentes cuja característica maior é o rompimento com os padrões do estrutural-funcionalismo (de origem principalmente norte-americana). É a década em que surgem as chamadas correntes críticas, que vão fecundar a economia (com desdobramentos interessantes na chamada "escola estruturalista"), a antropologia (lembrem-se as repercussões do trabalho de Darcy Ribeiro), a pedagogia (tenha-se em mente a influência das idéias de Paulo Freire) e, muito especialmente, a sociologia (nesta, além da "sociologia radical" defendida por Florestan Fernandes,  cabe recordar o florescimento da "sociologia da dependência"). Trata-se de um processo muito complicado, onde se cruzam influências muito diferenciadas - de Marx a M. Weber, passando por C. W. Mills e A.  Touraine -, mas que apresenta uma característica essencial: o projeto de comprometer-se abertamente com os movimentos sócio-políticos antiimperialistas e autonomistas, construindo um caldo de cultura em que a defesa de transformações sociais se colocava como inerente à legitimação das próprias ciências sociais.
Se levarmos em conta que este projeto não era uma idealização utópica, mas contava com pilares no movimento social efetivo (afinal, a Revolução Cubana e suas reverberações estavam na ordem-do-dia), e se considerarmos que ele penetrava áreas intelectuais das mais diversas especialidades, conquistando inclusive setores de instituições muito tradicionais (como a Igreja Católica ), compreende-se a significação ímpar desse período da história latino-americana e brasileira: nele, as ciências sociais e, mais amplamente, a cultura apresentavam uma direção social que rompiam com o tradicional elitismo que as caracterizavam até então .
Já observei que a Reconceituação não se compreende sem estes segundos fatores - e não somente pela incorporação da mudança de referenciais que eles implicaram: o principal elemento, aqui, é a interlocução que se instaura entre o Serviço Social e as tendências críticas neles embutidas, interlocução que, a partir dos anos sessenta, se mantém e se aprofunda progressivamente. Antes, o Serviço Social mantinha relações subsidiárias com o que se poderia chamar de "cultura das ciências sociais", e apenas com os traços conservadores desta "cultura"; a partir dos anos sessenta (e a Reconceituação abre este processo, mas ele prosseguirá para além dos seus limites),  estas relações tornam-se tanto substantivas e sistemáticas como abrangentes e inclusivas . Se recordamos que o Serviço Social se profissionaliza nos principais países latino-americanos no decorrer dos anos vinte e trinta (Maguiña Larco, 1979; Alayón, 1980; Iamamoto e Carvalho, 1983; Manrique Castro, 1984; Martinelli, 1989), o que ressalta do que dissemos é que somente nos últimos trinta anos a história dos debates profissionais tornou-se diretamente influenciada pela agenda dos debates nas ciências sociais.
Estão aí os elementos mais fundamentais que permitem compreender por que, a partir da Reconceituação, o Serviço Social já não pode pensar-se como alheio ou estranho à política  - na seqüência da Reconceituação, praticamente desaparecem formulações que o coloquem como prática ou elaboração neutra, asséptica ou imparcial . 
Mas o consensual reconhecimento da dimensão política do Serviço Social (ou a consensual atribuição de uma dimensão política a ele) começa a revelar as diferenças que se escondem para além da sua admissão formal quando se examinam as concepções acerca dessa mesma dimensão política. 
Não são poucos os profissionais que identificam a dimensão política do Serviço Social com as posições políticas expressas pelos assistentes sociais. É claro que essas posições, comumente situadas como tais apenas quando expressam ângulos partidários (o que implica, na verdade, a equivocada redução do político ao partidário), são significativas e devem ser tomadas em consideração na análise - realmente, é sempre um problema em aberto a relação entre as concepções pessoais do sujeito que realiza uma ação técnico-profissional e o significado social objetivo dessa ação. Entretanto, identificar a dimensão política do Serviço Social (ou de qualquer profissão) com as posições políticas dos profissionais - além do risco, em função da redução apontada, de identificar política exclusivamente com ação partidária - acaba por resultar na apreciação dessa dimensão como externa, contingente, à própria profissão. A existência de expressivos setores de assistentes sociais que compartilham dessa compreensão da dimensão política do Serviço Social parece evidente; não tão evidentes são as implicações dessa compreensão: a cuidadosa análise de Iamamoto (1992) demonstra que, assim posta a questão, é freqüente o corpo profissional oscilar entre um voluntarismo messiânico e um fatalismo desmobilizador.
As abordagens mais sofisticadas, existentes na literatura profissional, procuram escapar a essa polarização, mas o fato é que, se não encontram, de modo analiticamente fundado, a dimensão política como ligada também a uma característica imanente do Serviço Social, acabam por hipotecá-la apenas a variáveis exógenas. Os pioneiros trabalhos de Faleiros, publicados na década de setenta e revisados e ampliados nos anos oitenta, são ilustrativos dessa hipoteca (Faleiros, 1983): neles, é o projeto político (conservador ou transformador) a que aderem os profissionais a fonte da dimensão política do Serviço Social; em análises mais recentes, Faleiros aprimorou sua abordagem, explorando o que chama de "paradigma da correlação de forças" (Faleiros, 1997) - mas, em última instância, o autor não referencia a dimensão política do Serviço Social a algo que se imbrique às suas características de constituição histórica.
Outro analista que desenvolveu estudos rigorosos sobre a questão foi Carvalho (1983), aliás a primeira autora que, na literatura profissional, recorreu sistematicamente ao referencial teórico gramsciano. Apelando para categorias como "hegemonia", "práxis" e "transformação social", Carvalho identifica a dimensão política do Serviço Social na possível ação do assistente social como "intelectual orgânico" da classe trabalhadora . Também aqui, a profissão recebe suas determinações políticas basicamente de fora.
Outros estudiosos que se debruçaram sobre a questão poderiam ser mencionados - entretanto, em todos eles, registra-se a mesma angulação de análise  que, no limite e sem prejuízo das diferenças que os distinguem, termina por sintetizar a dimensão política da profissão no compromisso dos assistentes sociais para com um ou outro projeto sócio-político .
A recorrência dessa consideração da dimensão política como basicamente externa à profissão (presente, como estou indicando, em tantos autores) não pode ser atribuída a um erro ou a um engano analítico - mesmo que eu insista em que se trata de uma redução indevida e perigosa. Penso que há uma razão para esta constante reiteração: trata-se do fato indiscutível de que os contextos sócio-políticos concretos constituem um elemento importante na determinação da dimensão política do Serviço Social. Ou seja: não se pode pensar esta dimensão como se ela derivasse inteira ou exclusivamente de um conjunto de características endógenas do Serviço Social. O que a maioria dos estudiosos tem feito é levar em conta os contextos fazendo abstração de características endógenas da profissão - daí a consideração de que são fundamentalmente os contextos (com as correlações das classes e forças sociais em presença, com a relação entre classes e partidos, sociedade e Estado, etc.) que conferem significado político à profissão. Penso que é tão necessário levar em conta o peso desses contextos quanto a consideração dos elementos estruturais da profissão com os quais eles se interrelacionam, compreendendo então a dimensão política do Serviço Social como a síntese concreta de ambos.
Entendo que a abordagem que permite esta compreensão é aquela que situa a dimensão política do Serviço Social no quadro do significado social da profissão, onde se cruzam as suas particularidades históricas e as determinações do contexto sócio-político em que ela se realiza. Este significado social se apreende, de um lado, na constituição teórico-prática da profissão e, de outro, nas respostas institucionais que ela oferece nos diversos contextos. Assim, o político não aparece nem como uma determinação externa, conjuntural, nem como uma propriedade eterna e imutável da profissão: aparece como expressão histórica e socialmente concreta de uma imanência que, em si mesma, estrutura a profissão. Na literatura profissional brasileira, esta abordagem foi pioneiramente construída por Iamamoto (Iamamoto e Carvalho, 1983); depois, foi apurada e elaborada por Netto (1992); mais recentemente, tem embasado análises de aspectos da estrutura profissional (Guerra, 1995 e Barroco, 1997).   
Esta perspectiva de análise veio se construindo no Serviço Social na própria medida em que este foi se apropriando do referencial teórico marxiano de forma a superar os problemas das primeiras aproximações profissionais ao legado de Marx, aproximações que Netto (1989) qualificou como "enviesadas" e que resultaram geralmente em incorporações mecanicistas e reducionistas da metodologia materialista dialética (Quiroga, 1991).  
Para esta perspectiva, é essencial, na determinação da dimensão política do Serviço Social, começar por analisar a sua gênese - tanto como referência teórica quanto como conjunto de práticas. É o que fizeram, nos textos citados, Iamamoto e Netto - e desta análise resultou a rigorosa filiação da profissão ao pensamento conservador e, como sistema de práticas, ao reformismo conservador. A institucionalização profissional, tornando o Serviço Social uma especialização na rede da divisão sócio-técnica do trabalho, nos limites do capitalismo monopolista, verificou-se quando a afirmação dos direitos sociais - fruto de dolorosos confrontos de classes - encontrou expressão nas políticas sociais do Estado burguês e quando à profissão alocou-se o trato executivo terminal das expressões da questão social (Netto, 1992). Neste espaço sócio-histórico, as determinações originais da gênese da profissão experimentaram transformações e metamorfoses, renovando sempre as bases da sua legitimação social - mais precisamente, redesenhando o seu significado social. 
Para esta perspectiva, portanto, para determinar a dimensão política da profissão não basta a referência aos contextos e às conjunturas do seu exercício. Tal dimensão também está vinculada à matriz original do Serviço Social, matriz teórica e ídeo-cultural. Localizada esta no pensamento conservador e seu projeto de reforma social (Iamamoto e Carvalho, 1983; Iamamoto, 1992; Netto, 1992; Machado, 1997), cabe à análise perseguir as suas mutações ao longo do desenvolvimento profissional, mutações só analisáveis com o estudo dos contextos e das conjunturas.
A importância de conferir um peso significativo à matriz original do Serviço Social consiste em que, a partir daí, é possível compreender o significado social da profissão na rede complexa das relações sociais não somente para a determinação da sua dimensão política atual e/ou contemporânea, mas na sua própria origem - o que permite acompanhar as mutações profissionais (como diria Iamamoto, acompanhar a mudança dos seus processos de legitimação) e, portanto, esclarecer melhor o desenvolvimento que conduz às variações do seu caráter político. 
Entretanto, esta abordagem possibilita apreender algo extremamente importante: torna possível apanhar este caráter não só nas práticas profissionais que se vieram sucedendo no tempo, mas nas referências teóricas fundantes do Serviço Social. Assim, a dimensão política passa a referir-se, para além de escolhas dos profissionais e da pressão de conjunturas, à cultura sócio-profissional antecedente a ambas. 
É precisamente aí que localizo o núcleo da problematização que me interessa: essa cultura sócio-profissional, estruturada a partir do pensamento conservador e seu projeto de reforma social, só é compreensível como uma resposta teórica e política ao movimento socialista no final do século XIX e nos inícios do século XX. No plano teórico, as fontes do Serviço Social (a tradição positivista e o catolicismo social) constituem um momento fundamental da alternativa intelectual e acadêmica ao pensamento socialista (Lukács, 1968; Nisbet, 1982 e 1987; Löwy, 1994); no plano prático-profissional, as modalidades interventivas que conduzirão à institucionalização do Serviço Social foram sempre direcionadas para integrar demandas de setores sensíveis a propostas socialistas ou para reformar, sobre estes setores, os dispositivos do controle social a serviço da ordem (Verdès-Léroux, 1986; Carvalho, 1990). Assim, uma compreensão rigorosa do Serviço Social, na sua gênese, passa obrigatoriamente pela compreensão das idéias (as teorias e propostas socialistas) e das práticas (a ação sindical e partidária dos movimentos e partidos socialistas) em face das quais, ou contra as quais, a profissão encontrou o seu ponto de arranque.
Dois exemplos, penso que já suficientemente conhecidos, bastam para ilustrar a importância dessa linha de análise. O primeiro se refere ao próprio leit-motiv da profissão: a questão social - esta não é mais que a incorporação, por parte do conservadorismo da segunda metade do século XIX, do conjunto de problemas colocados pela exploração capitalista sobre o conjunto dos trabalhadores; a própria expressão questão social significa o olhar conservador sobre a problemática da exploração, cortada das suas causalidades econômicas e tornada objeto de intervenção técnica. O segundo relaciona-se a uma programática quase conatural à profissão, isto é, à proposta da Doutrina Social da Igreja sob Leão XIII: no próprio texto da Rerum Novarum (1891), a contraposição ao movimento socialista é explícita. 
Confirmando a tese de Mannheim (in Martins, 1986) sobre o caráter reativo do pensamento e da prática conservadores, a relação entre o Serviço Social e o movimento socialista não se limita à gênese da profissão: o desenvolvimento do Serviço Social também se configura como uma resposta ao desenvolvimento do movimento socialista. Evidentemente, não se trata de uma resposta elaborada com consciência nem assumida como tal; mas é impressionante notar como, em praticamente todos os países, conforme se pode ver por uma comparação entre a bibliografia profissional e a história das lutas sociais, a ampliação das práticas acompanha o crescimento do protagonismo (efetivo ou temido) dos socialistas. O que se constata no caso da França repete-se nos Estados Unidos (veja-se a institucionalização profissional nos anos progressistas), em Portugal (a resposta à contestação operária à direitização da República) e no Brasil (a disputa da direção dos movimentos sociais então controlados por anarquistas e comunistas) - e, quanto a este ponto, a documentação não abre lugar a dúvidas (Verdès-Léroux, 1986; Leiby, 1978; Mouro e Carvalho, 1987; Carvalho, in Iamamoto e Carvalho, 1983). Na América Latina, então, há inúmeras evidências dessa relação, a mais forte delas relacionada ao florescimento, na área profissional, do Desenvolvimento de Comunidade: implantada sob a inspiração da OEA, no início dos anos cinquenta (Manrique Castro, 1984), esse particular desenvolvimentismo terá grande estímulo na sequência dos impactos da Revolução Cubana.
Assim, a pesquisa do movimento socialista se revela um domínio de estudo que é capaz de contribuir para a análise do Serviço Social e, particularmente, para a compreensão da sua dimensão política. Se esta for tomada segundo a abordagem que eu incorporo (aquela desenvolvida por Iamamoto e Netto), será compreendida tanto em sua expressão conservadora, que se contrapõe ao movimento socialista, quanto em sua expressão anticonservadora, quando (e este fenômeno é muito recente, vinculado à Reconceituação) se expressa sintonizada com ele. Especialmente neste último caso - que é expressivo na América Latina e no Brasil dos anos sessenta em diante, com o surgimento daquilo que Netto (1991) chamou de tendência de ruptura -, é particularmente útil a análise, que desenvolvo nos capítulos desta tese, da relação reforma/revolução: muitos dos confrontos entre as correntes renovadoras da profissão, nos últimos trinta anos, tiveram como pano-de-fundo propostas socialistas que se enfrentavam no ponto de clivagem entre reformismo social-democrata e ação revolucionária.
Contudo, mesmo se a dimensão política do Serviço Social for assumida como um dado puramente contextual, ou, ainda, como derivada apenas da opção individual dos assistentes sociais, ainda assim o estudo do movimento socialista é pertinente, uma vez que, nestes casos, a sua importância - quer para definir contextos, quer para influir sobre opções individuais - não pode ser menosprezada.
Penso que o exame da realidade profissional brasileira, quanto a este aspecto, é suficiente para indicar a procedência da minha argumentação. Do ponto de vista da produção acadêmica, a literatura profissional dos anos oitenta e noventa revela indiscutivelmente a marca da relação da agenda profissional com os avanços e os impasses (e, mais proximamente, a crise) das correntes socialistas brasileiras - e, para não citar autores individuais, basta recorrer à documentação produzida, por exemplo, pela ABESS, para verificar a reverberação das temáticas socialistas. No âmbito de fóruns privilegiados da categoria, então, essa reverberação é flagrante - tomem-se, como exemplo, os Congressos Brasileiros de Assistentes Sociais, a partir de 1979 (Sousa, 1991). Igualmente, são corroborativos da relação mencionada os Códigos de Ética de 1986 e 1993 (Barroco, 1997).
                               *   *   *   *   *
A síntese das minhas idéias é a seguinte: constituindo-se como expressão do conservadorismo, o Serviço Social só tem a sua dimensão política determinável se compreendermos o conservadorismo em vinculação com o seu antagonismo ao movimento socialista; quando procura romper com o conservadorismo, assumindo-se expressamente como intervenção profissional que faz opções políticas, o Serviço Social "crítico" ou "de ruptura" só é inteiramente compreensível quando se esclarece a sua relação com o movimento socialista. Numa palavra, por qualquer caminho que se tome, a dimensão política do Serviço Social só é adequadamente compreendida quando posta em relação com o movimento socialista . E como esta dimensão política é hoje inconteste, o estudo dessas relações se impõe como urgente.
O exame a que procedi da literatura profissional me autoriza a afirmar que este estudo está ainda por fazer-se - não encontrei, na documentação profissional, nenhum texto que, expressa e intencionalmente, encaminhe tal estudo. Quanto a isto, temos um verdadeiro território virgem à frente e, portanto, todas as contribuições devem ser estimuladas e saudadas. Mas esta "virgindade" põe problemas: por onde começar? Que temáticas priorizar? Que recortes eleger?
 Tenho para mim que vários caminhos podem ser escolhidos. Minha opção foi tratar a relação reforma/revolução numa das vertentes do movimento socialista - aquela centrada na direção teórica e política de Marx - entre 1848 e 1917 por duas razões: primeira, porque este período marca a constituição e maturação do movimento socialista revolucionário de base proletária, tanto do ponto de vista teórico como prático-político, assim como de sua fratura histórica (a divisão entre "reformistas" e "revolucionários", entre social-democratas e comunistas); segunda: porque é neste período que se transita das "protoformas" do Serviço Social para a sua institucionalização profissional. 
Não avancei para o estudo das relações entre o movimento socialista, neste período, e o Serviço Social porque este desdobramento supõe a pesquisa (pesquisa que, ela mesma, já contando com rica documentação, permanece um campo aberto de polêmicas e problemas) cujos resultados apresento neste Tese e... porque constituiriam uma outra tese. Esta, creio,  a grande limitação do meu trabalho. Acredito, porém, que se o primeiro passo foi dado com algum êxito, o próximo se tornará menos difícil - para mim e para outros companheiros que se aventurarem nesta direção. Facilitar este passo necessário é, também, uma pretensão desta Tese. 
Capítulo 1
Reforma e revolução:  tensão
sócio-política na Modernidade
 
Os conceitos de reforma e revolução sociais se perfilam no vocabulário político do Ocidente na primeira metade do século XIX - ainda que suas raízes possam e devam ser buscadas no conjunto de transformações sócio-culturais que emergem com o Renascimento (Skinner, 1996).
A configuração desses conceitos remete, diretamente, à experiência das revoluções burguesas paradigmáticas (em especial, a Revolução Francesa) e às suas derivações mais imediatas; mas remete, ainda, aos seus substratos culturais e teóricos: a Modernidade - a Ilustração e seu projeto emancipatório, a razão ilustrada e a aspiração a uma sociedade racionalmente organizada.  E remete, sobretudo, ao impasse do projeto moderno no quadro da sociedade burguesa, já que esta se revela incompatível com a sua inteira realização (a desigualdade não pode suportar uma verdadeira liberdade).
Entre 1789 e 1848, todas estas tensões vêm à luz e não é por acaso que o mais importante historiador marxista do século XX  tenha caracterizado esses cinquenta anos como a era das revoluções (Hobsbawm, 1989). É nele que se consolida a ordem burguesa, é nele que a negatividade proletária emerge. Entre consolidação da ordem e sua negação, constróem-se as alternativas da reforma e da revolução.
A Ilustração e a revolução
A Ilustração - que podemos entender, como quer Rouanet (1993), como um capítulo histórico do projeto transistórico do Iluminismo - consistiu, basicamente, na preparação ideal do momento culminante do processo da Revolução Burguesa, aquele que se refere ao domínio do político, da destruição do sistema de poder feudal e da constituição do Estado controlado pelo capital (o Estado burguês).
Como diz Marx, a sociedade burguesa "se preparava desde o século XVI, e no século XVIII deu larguíssimos passos em direção à sua maturidade" (Marx, 1982: 3). Menos brevemente: o processo de constituição da sociedade burguesa, plurissecular, avança para a maturidade quando a burguesia pode modelar um Estado que responda aos imperativos da acumulação e da valorização que articulam a sociedade civil por ela estruturada. Aquele processo, desencadeado, ainda no interior da feudalidade, pela acumulação primitiva, dissolutora dos vínculos servis e demiurga do terceiro estado, só pode se desenvolver plenamente quando a lógica do capital organizar o conjunto das relações sociais; para isto, é preciso um centro organizador de poder macroscópico - um Estado dotado de soberania e territorialidade definida (o Estado nacional). Os puros mecanismos e dispositivos econômicos, na sua objetividade, não determinam esta realidade política: ela só pode ser resultado de um projeto, de uma estratégia (consciente) de classe. A vontade política aqui é indispensável. Mas a sua efetivação depende de uma cultura que a propicie. Donde a exigência de uma hegemonia cultural como condição prévia para a revolução política burguesa.
A Ilustração condensa a hegemonia cultural da burguesia sob o Ancien Régime e, nesta linha de argumentação, condensa a possibilidade de a burguesia lhe desferir o golpe de morte (o golpe político). A Ilustração é, assim, por uma parte, uma complexa conseqüência da ascensão econômica da burguesia e, por outra, uma complexa condição para a dominação política burguesa. É, em síntese, o pressuposto cultural para a revolução burguesa enquanto revolução política.
Enquanto conseqüência da ascensão econômica da burguesia, o pensamento ilustrado resulta de uma progressiva laicização do mundo social, que encontrou sua legitimação jurídico-filosófica no jusnaturalismo (Bobbio e Bovero, 1986). O espírito do capitalismo é, como o percebeu Weber (1967) ao mencionar o desencantamento do mundo, imanentemente dessacralizador. Num movimento que começa com a substituição do teocentrismo pelo antropocentrismo (substituição que está no cerne do Renascimento e rebate na Reforma Luterana), a centralidade do conhecimento objetivo (científico, desantropomorfizador) da natureza impõe-se para o desenvolvimento das relações econômicas capitalistas: o florescimento da ciência moderna, a partir da Física de Galileu e de Newton, está umbilicalmente ligado ao desenvolvimento das forças produtivas que a Revolução Comercial libera (Bernal, 1989). A laicização então deflagrada se expressa no empirismo e no materialismo que invadirão os sistemas filosóficos, entre o Renascimento e o Século das Luzes - e o trânsito da manufatura para a maquinofatura, na segunda metade do século XVIII, inaugurando o albor do capitalismo industrial, propiciará que esse empirismo e esse materialismo se desloquem da filosofia da natureza para a reflexão filosófica sobre a sociedade (na construção de um esquema positivista que, antes da Revolução Francesa, tem viéses altamente críticos ). Neste deslocamento, a exigência intelectual elementar residirá na demanda de autonomia para a reflexão filosófica - demanda que, sabe-se, aparecerá, entre os ilustrados, como a ruptura dos laços de subordinação da filosofia em face da teologia.
Expressão do conjunto desse movimento complexo e multiforme, a Ilustração construirá um conceito de razão dominantemente instrumental - uma racionalidade manipulatória, operativa, voltada para a determinação de meios ótimos em função de fins que, em si mesmos, permanecem fora de qualquer discussão. Uma racionalidade que, em nome da eficácia, descarta as questões da legitimidade - uma racionalidade cujo fim precípuo é o controle de variáveis dadas, inteiramente adequada à dominação da natureza pela sociedade .
Mas a Ilustração não se reduz, como já deixei indicado, a uma expressão da ascensão econômica da burguesia (ou, se se preferir, a uma função derivada da emersão de relações econômicas capitalistas). Mais que esta consequência cultural, ela é um programa sócio-cultural que, colocando a hegemonia cultural (e social) da burguesia revolucionária, põe as condições para o momento eminentemente político da revolução burguesa. Aqui reside sua dimensão projetiva, propositiva: prefiguração da sociedade racionalmente organizada, com as palavras-de-ordem que, no processo de liquidação política da feudalidade, aparecerão no lema liberdade, igualdade, fraternidade.
Programática revolucionária, a Ilustração é regida por uma determinação geral que envolve todos os grupos sociais transformadores e de vanguarda em sociedades cortadas pelas divisões de classes: os valores que enuncia não aparecem nas suas concretas conexões com interesses dos grupos particulares, mas surgem, necessariamente, como expressões de um interesse geral . Assim é que o ideário  projetivo ilustrado - centralizado pelas noções de autonomia, liberdade e livre desenvolvimento de todos e cada um dos homens - se remete ao gênero humano, indiscriminadamente; a mistificação ideológica de que é prisioneiro, porém, não reduz o seu alcance revolucionário: seu caráter liberador contém um potencial erosivo que transcende as suas limitações e as suas ilusões .
Aqui, a Ilustração funda uma racionalidade distinta daquela instrumental: põe, de fato, uma razão emancipatória, centrada na liberação dos indivíduos de toda autoridade que não seja legítima, de toda hierarquia que não seja conscientemente aceita. Uma razão que, privilegiando a reflexividade dos indivíduos, deposita na instância do conhecimento das necessidades a alternativa da liberdade. Uma razão que hipoteca a otimização dos meios à legitimidade dos fins, estabelecidos segundo a natureza dos sujeitos e suas intencionalidades conscientes.
A Ilustração me parece, pois, uma cabeça de Jano: sua racionalidade é bidimensional - abriga um vetor instrumental e um vetor emancipatório. Tem potencialidades de dominação e de liberdade. Os quadros sociais em que vier a desdobrar-se é que determinarão a dominância de uma ou outra dimensão. No processo político da revolução burguesa, parece inequívoca a dominância dos seus componentes emancipatórios.
Esta dominância revela-se em dois níveis. O primeiro se relaciona a uma concepção prometéica, fáustica, do sujeito humano. Consumação do antropocentrismo emergente no Renascimento, esta concepção dará à razão ilustrada uma característica marcante: a característica do humanismo - o homem visto como um ser aberto, inconcluso, passível de melhoria e aperfeiçoamento; de Rousseau a Hegel, esta concepção de homem se consolidará como um dos valores mais duradouros do pensamento ilustrado. O segundo nível, intimamente vinculado ao anterior, remete a uma concepção progressiva da história: o aperfeiçoamento e a transformação dos homens se viabiliza porque a história é um processo ascensional, cumulativo, que plasma uma trajetória evolutiva  - o progresso é a outra marca da razão ilustrada .
Ora, é esta razão ilustrada, que tem no humanismo e no progresso duas de suas âncoras, que vai submeter à análise as instituições próprias da feudalidade. Ela se insere, assim, no quadro da constituição da hegemonia sócio-cultural da burguesia com uma nítida função: a da crítica social. Pode-se afirmar, sem correr o risco do exagero, que é a razão ilustrada que funda a crítica social. Antes da Ilustração, com a laicização que lhe é inerente, não se pode, a rigor, falar de crítica social - elementos de crítica social aparecem subordinados a outras ordens de discurso (pense-se, por exemplo, no conteúdo oculto das heresias ou, para um capítulo já na abertura do mundo moderno, na justificação ideológica das partes em conflito na guerra dos camponeses alemães). A crítica social stricto sensu acompanha a curva que vai do Renascimento à Ilustração - não é casual que, aqui, possamos nos reportar a T. Morus -, só se construindo como tal no interior do pensamento ilustrado: neste ponto, a obra de Rousseau é absolutamente importante.
Com o autor do Contrato social, porém, a crítica social não se esgota na crítica ao mundo da feudalidade: o exame da socialidade - porque é disto que se trata, quando Rousseau discute, por exemplo, as origens da propriedade privada, ou o problema da educação ou, ainda, os fundamentos da soberania - a que procede o pensador genebrino contém elementos para a crítica de toda sociedade na qual o contraponto da liberdade é a desigualdade. Não é um simples acidente, portanto, que a obra rousseauniana condense tendências subversivas que conservam atualidade para além da crítica ao Ancien Régime; muitos dos futuros críticos da sociedade emergente da Revolução vão inspirar-se em Rousseau para afinar suas armas contra a burguesia e os primeiros passos do conservadorismo pós-revolucionário identificarão no autor do Emílio o seu verdadeiro inimigo . 
O que é importante verificar e ressaltar é que, no seu conjunto, a crítica social ilustrada, ao denunciar as instituições feudais, abria o caminho para a instauração e o desenvolvimento das instituições próprias da sociedade burguesa. Tanto no domínio da teoria política quanto no da economia política - pense-se em Locke e em Smith -, a crítica social oriunda da Ilustração operava no sentido da instauração de uma sociedade racional tal como a entendia a perspectiva de classe da burguesia revolucionária. A vertente mais significativa dessa crítica social (e isto vale, repita-se, tanto para o debate político quanto para a análise econômica), como se sabe, é o liberalismo clássico, a mais emblemática das construções ideológicas da burguesia heróica do século XVIII. O caráter emancipador do liberalismo clássico, pré-revolucionário, é amplamente reconhecido, inclusive por um de seus críticos mais inclementes, Marx, que nunca deixou de valorizar a questão da emancipação política, ainda que mostrasse a distância que a separa da emancipação humana (Marx, 1969).
	A anterior referência a Rousseau, que obviamente não pode ser inscrito no âmbito do pensamento liberal, não é aqui casual: ao contrário, ela permite assinalar precisamente o nexo entre a Ilustração e a Revolução - o estágio da máxima radicalidade política no processo da Revolução foi resultado da ação dos herdeiros prático-políticos de Rousseau: os jacobinos do Ano II, com Robespierre e Saint-Just à frente. A República jacobina é, na sua particularidade histórica, impensável sem Rousseau - do mesmo modo que a Revolução é impensável sem a Ilustração . 
	A derrocada jacobina e a crise do Diretório serão resolvidas, na sequência do consulado, pela instauração do Estado burguês, de que Napoleão se fez fiador. O capítulo revolucionário-burguês chegava ao fim, mas não esgotava, neste desfecho, a herança ilustrada.
 
O adeus burguês à revolução
O militar corso dá espírito e matéria ao Estado burguês: de um lado, promulga o Código ; de outro, cria o exército profissional - ordenação e aparelho repressivo. Culmina a construção do mundo burguês: a revolução política, de que resulta o Estado napoleônico, sintetiza o principal dos "larguíssimos passos", de que fala Marx, no sentido da sua maturidade.
Construído o mundo burguês, no coroamento de um largo processo revolucionário, o legado ilustrado deixa de ser funcional - enquanto enlace de razão instrumental e razão emancipatória - à burguesia tomada como classe. Depois do Congresso de Viena (1815), a condição de classe dominante retira-lhe a natureza revolucionária: já não tem um mundo a conquistar, tem um mundo a preservar. A cultura adequada à ordem burguesa cabe, necessariamente, refuncionalizar o legado ilustrado: deve compatibilizar-se com o dinamismo inerente à socialidade do capital, mas deve, igualmente, legitimar a sua pretensão de perenidade (de "ordem natural da sociedade"). Numa palavra: deve reestruturar-se de modo a dar conta do dinamismo da vida social ao mesmo tempo em que deve resguardar as estruturas fundamentais da ordem social.
Esta refuncionalização cobrirá um período de, aproximadamente, três decênios - de meados dos anos vinte ao final da década de quarenta . Uma síntese desta refuncionalização pode ser oferecida pela seguinte imagem: a burguesia dá adeus à revolução. 
Com efeito, a cultura pós-revolucionária deve ser, prioritariamente, uma cultura anti-revolucionária: deve legitimar a revolução que está no passado imediato, mas recusar e infirmar qualquer revolução presente e/ou futura. A revolução passada foi legítima porque instaurou a sociedade racionalmente organizada, a sociedade conforme a natureza humana e aos indivíduos que a expressam  - e, por isto mesmo, não há como justificar qualquer intento contra esta ordem. Deste modo, esta cultura reconhece a história enquanto processo passado, anterior, mas a desqualifica enquanto processo contemporâneo . Trata-se de uma cultura intrinsecamente conservadora: os seus valores fundamentais encarnam os elementos estruturais e estruturantes da ordem (a propriedade privada dos meios de produção, a estrutura de classes, a distinção entre governantes e governados). Contudo, ela deve dar conta do caráter fluido e mutável dos fenômenos desta mesma ordem, na qual "tudo o que sólido se desmancha no ar" ; por isto, o conservantismo desta cultura não pode ser impermeável à dinâmica social: ele deve estar apto para incorporar a mudança social, ele deve estar aberto a transformações graduais. Numa palavra: esta cultura deve sustentar que ordem é progresso (e sabemos bem de quem é esta fórmula tão eloqüente).
Neste sentido, a construção da cultura pós-revolucionária implica uma ampla redefinição das relações entre a burguesia vitoriosa e o legado da Ilustração. Redefinição que se fundará em duas inflexões importantíssimas. De um lado, dar-se-á por concluído, com a emancipação política, o ideário emancipatório: a dimensão emancipadora põe-se como realizada e, portanto, anacrônica - o cidadão é o homem liberado e emancipado, a democracia político-parlamentar (com os seus institutos reduzidos à representação e a um Estado de direito) é o estágio final do processo do político. Mas não se trata apenas de uma anacronização da razão emancipadora: trata-se, sobretudo, da inteira dominância da razão instrumental - a mercantilização geral das esferas da vida social situa como determinantes os procedimentos manipulatórios. A racionalidade da cultura pós-revolucionária, portanto, resolve a tensão existente na razão ilustrada subordinando completamente o pólo emancipador ao pólo instrumental: a cabeça de Jano é equalizada. A razão é identificada com os procedimentos instrumentais.
De outro lado, e em plena consonância com as necessidades legitimadoras dessa cultura, há um progressivo deslocamento da crítica social. A crítica social, superados os quadros do Antigo Regime, perde sua função para a burguesia vitoriosa. A pouco e pouco, ela vai ser substituída por um tipo novo de saber, um conhecimento cujas pretensões de objetividade assentam na incorporação mecânica dos procedimentos da pesquisa da natureza como epistemologia fundante de uma ciência social: a crítica social, tal como a engendrou o pensamento ilustrado, é deslocada por uma sociologia que tanto mais se reconhece científica quanto mais se requer como axiologicamente neutra.
O adeus à revolução, que aqui estou resumindo muito brevemente, foi magistralmente descrito por Marcuse (1969) com o emprego de uma metáfora: a passagem de uma filosofia negativa para uma filosofia positiva (que, naturalmente, não se reduz ao positivismo comteano). Esta passagem, penso, vincula-se também à conversão do que, ciência no pensamento ilustrado, é agora convertido em tecnologia social: como tem de dar conta da dinâmica das relações capitalistas, a cultura pós-revolucionária será uma cultura reformista - o caráter reformista do conservadorismo não constitui nenhum paradoxo: a posterior sociologia positivista, nas mãos quer de Comte, quer de Durkheim, nunca se privou de um programa de reforma social (Giddens, 1984); por outro lado, a análise do pensamento conservador, há muito, já demonstrou sua vocação reformista (Mannheim, 1976).
E isto por um complexo de razões extra-teóricas (afinal, não existe um puro movimento das idéias): por razões de natureza histórico-social - a cultura pós-revolucionária tinha que confrontar-se, de uma parte, com os movimentos sociais restauradores e, de outra, com os movimentos sociais que questionavam a realização da sociedade organizada racionalmente. Ambos punham em xeque a ordem pós-revolucionária: os primeiros, vendo nela a anarquia e a dissolução da ordem tradicional; os segundos, reclamando a efetividade da tríade liberdade/igualdade/fraternidade. Numa palavra, a cultura pós-revolucionária tinha que confrontar-se com uma cultura anticapitalista que, no limite, alimentava-se das contradições, antagonismos e conflitos desatados pela maturação da ordem burguesa, sintetizados no que veio a ser designado como questão social. Ora, a cultura pós-revolucionária é conservadora na exata medida em que se propõe a resolução da questão social nos marcos da sociedade burguesa - e, para esta resolução, um programa reformista é imprescindível, desde que situado numa clave técnica (donde o papel das "tecnologias sociais") .
O anticapitalismo e a herança ilustrada
As etapas finais de constituição do mundo burguês, configuradas com o erguimento do Estado burguês, não são concomitantes apenas à abertura de um processo sócio-cultural no interior do qual o projeto revolucionário da burguesia se converte em programática conservadora (tal como indiquei há pouco). Elas também coincidem com o surgimento de uma forte e duradoura cultura anticapitalista, que faz parte da vaga romântica pós-revolucionária, tal como a analisou Alexandrian (1983) . 
Não se trata, esta cultura, de um bloco indiferenciado e homogêneo. Muito ao contrário: como ver-se-á logo a seguir, esta cultura é um complexo antitético e antagônico de idéias, projetos e valores, que se, por um lado, se confrontarão com as idéias e projetos e valores da cultura pós-revolucionária da burguesia, por outro se enfrentarão entre si com invulgar contundência. Na verdade, a cultura anticapitalista que acompanha a culminação da revolução burguesa contém uma recusa da ordem burguesa motivada e tensionada por valorações radicalmente incompatíveis.
Tome-se alguns de seus marcos fundadores para explicitar melhor a minha argumentação: entre a queda da Bastilha e o Consulado, vêm à luz  as  Reflexões sobre a revolução na França (1790) de Burke e Saint-Simon publica as suas Cartas de um habitante de Genebra (1802);  nos imediatos desdobramentos do Congresso de Viena, De Maistre publicita O papa (1819-1821) e Owen divulga o Informe dirigido ao condado de Lanark (1821); enfim, antes da Revolução de Julho, Rosmini edita o Novo ensaio sobre a origem das idéias (1830) e Fourier dá a público O novo mundo industrial e societário (1829). Todas estas obras segregam uma recusa da ordem estabelecida sob o Estado burguês: em todas há uma crítica que repudia os padrões sociais globais que expressam a "maturidade da sociedade burguesa". Elas são fundantes da cultura anticapitalista que me interessa aqui; são mesmo as obras seminais do anticapitalismo. Contudo, e este é o ponto fundamental, à parte as diferenças na natureza, no grau e na extensão da crítica que fazem à ordem burguesa , há uma linha de fratura que antagoniza os dois campos que circunscrevem essa cultura anticapitalista: trata-se do sentido da crítica que fazem ao mundo do capital. 
O primeiro campo (polarizado pelo pensamento de Burke, De Maistre e Rosmini) apontará a alternativa à ordem burguesa no mundo pré-Revolução: sua recusa do presente (burguês) se faz em nome do passado (o Antigo Regime). A sua crítica, portanto, é de natureza restitutiva - temos, aqui, o anticapitalismo romântico, que, com um viés nitidamente reacionário,  conduz a uma proposta social nitidamente restauradora: valendo-se dos traços socialmente deletérios e das mazelas visíveis na nova organização social, este campo da cultura anticapitalista faz a crítica do presente contrapondo-o a um passado idealizado: o Antigo Regime não aparece como o reino do obscurantismo (tal como criticado pelos ilustrados), mas como o domínio da harmonia e da plenitude humanas. Não se propõe uma reforma que resgate o passado: propõe-se a negação radical do presente em nome de um passado idílico. Os traços instrumentais e manipuladores da racionalidade social inerente à sociedade burguesa são sumariamente identificados como os traços constitutivos da razão - e esta é desqualificada tanto como a nova ordem social. A crítica social fundada contra o Antigo Regime se transforma numa apologia dele mesmo - e o anticapitalismo se mostra como um difuso sentimento de recusa da ordem burguesa que encontra a sua resolução numa mítica reconstrução da comunidade que as relações mercantis destruíram. A posterior evolução dessa crítica social - que, paradoxalmente, repudia não só a racionalidade instrumental, mas a própria idéia de razão - lançará as bases do reacionarismo moderno (assim como do moderno irracionalismo) .
O segundo campo (polarizado pelo pensamento de Saint-Simon, Fourier e Owen) apontará a alternativa ao mundo burguês na sua superação: sua crítica do presente é feita em nome do devir. De alguma maneira recuperando o espírito democrático de Rousseau, a que já me referi, este campo anticapitalista situa a resolução dos conflitos e contradições da ordem nascida da Revolução não no passado, mas no futuro: trata-se da resolução que aponta para a construção de uma ordem sócio-política e econômica situada para além (e não aquém) das conquistas revolucionárias. Aqui, a inspiração ilustrada opera na constituição de um projeto emancipatório que considera que a nova ordem não é suficientemente racional - e, portanto, não se trata de criticá-la por um excesso de racionalidade (como no caso do anticapitalismo romântico), mas por um déficit de racionalidade. Está aqui a matriz de um pensamento sócio-político que configura o perfil do originário movimento socialista, nas suas formulações que posteriormente serão designadas como utópicas.
A cultura anticapitalista pós-revolucionária, portanto, está organicamente vinculada à herança ilustrada, positiva e negativamente: o anticapitalismo romântico, voltado para a recusa passadista da ordem burguesa, posiciona-se negando a Ilustração; o anticapitalismo que configura o socialismo chamado utópico, posiciona-se assumindo positivamente a Ilustração. Num caso como noutro, a relação com a Ilustração é capital: define a própria natureza interna da cultura anticapitalista. Bastaria um simples cotejo das idéias de Burke com as de Saint-Simon (naturalmente partindo da posição de ambos em face da Revolução Francesa: o primeiro repudiou-a integralmente; o segundo viu nela a abertura de um novo e mais alto estágio na história do gênero humano) para revelar como a recusa ou o resgate da herança ilustrada definem o sentido e a estrutura do seu pensamento. 
A herança ilustrada na ordem burguesa
Se a minha argumentação é procedente, é possível, a esta altura, determinar minimamente o destino da herança ilustrada na ordem burguesa constituída (pós-revolucionária). 
Do ponto de vista da burguesia vitoriosa, da burguesia que se impôs como classe dominante, é imperativo manter viva e realimentar, da Ilustração, a razão instrumental, tornada a razão tout court. É imperativo, em primeiro lugar, pela natureza mesma da dinâmica das relações econômicas capitalistas: estas são inviáveis e impensáveis sem um crescente controle da natureza, sem um crescente domínio da matéria sobre a qual se realiza o que Marx chamou de "metabolismo entre a sociedade e a natureza". A produção de bens (materiais e imateriais, produtos e serviços), no marco das relações sociais de produção capitalistas, demanda prioritariamente a manipulação que só o estoque de conhecimentos propiciado pelo desenvolvimento da racionalidade instrumental garante - o produtivismo do ethos capitalista só pode ser assegurado pela potenciação da razão instrumental . Entretanto, a mesma imperatividade se coloca no plano sócio-político: é próprio da burguesia tornada classe dominante transladar a racionalidade instrumental para a compreensão e a gestão dos modos de socialidade - fora dos marcos da manipulação social, a gestão da ordem burguesa torna-se extremamente problemática. É com o suporte da racionalidade instrumental que a burguesia pós-revolucionária pode operar a despolitização da questão social e transformar a crítica da res publica num objeto de intervenção técnica. Tanto no plano da relação com a natureza como no plano da interação social, o paradigma intelectual (mais amplamente: a cultura) da burguesia pós-revolucionária é a instrumentalidade manipuladora  - não é um evento puramente epistemológico, portanto, que o positivismo e todas as suas ulteriores derivações constituam o eixo em torno do qual gravitam as construções científicas e culturais mais expressivas da burguesia pós-revolucionária (Coutinho, 1972; Mészáros, 1996). 
Do ponto de vista dos críticos dessa burguesia pós-revolucionária, a herança ilustrada é, por um lado, recusada - já assinalei que o anticapitalismo romântico tem, no combate à Ilustração, um de seus suportes, abrindo a via ao irracionalismo e ao reacionarismo - e, por outro, resgatada - a razão ilustrada é a base da crítica de que nascerá o socialismo utópico. Este resgate, porém, se faz numa perspectiva em que um traço constitutivo da Ilustração, que até agora não foi objeto da minha análise, é inteiramente preservado - num procedimento que faz com que as projeções utópicas, tomadas em si mesmas, não transcendam praticamente o horizonte burguês. Detenhamo-nos por um momento neste traço.
Trata-se do componente estritamente iluminista do pensamento ilustrado. É consenso, entre os ilustrados, que a razão dispõe de uma força imanente que a torna, inevitavelmente e a longo prazo, triunfante. Acreditam os ilustrados que a razão, pela legitimidade dos seus fundamentos, pela eficácia dos seus métodos, pela generosidade dos seus fins, impor-se-á compulsoriamente no mundo. É conhecido o crédito que os ilustrados concediam à educação: pela universalização do reto conhecimento, da consciência liberta dos preconceitos e superstições, o reino da razão se universalizaria. Trata-se de um componente rigorosamente idealista do credo ilustrado, que parametrou inclusive as formulações materialistas da Ilustração - em todas elas, a força da razão terminaria por subordinar a  força das coisas. Eis por que, na Ilustração, a reforma das idéias é um pressuposto da reforma do mundo. Mesmo quando a herança ilustrada foi posta à prova em face da força das coisas, em dolorosos confrontos sócio-políticos, esse traço idealista-iluminista esteve presente - e nada ilustra melhor este aspecto que a entronização da Deusa Razão na República Jacobina.
A crítica radical a este traço iluminista caberia ao jovem Marx - quando ele descobriria que a razão só pode triunfar se se transformar, ela mesma, em força material, se e quando for apropriada por contingentes de homens . Mas esta crítica não se deveu apenas a um lampejo de genialidade de um pensador isolado; antes, ela demandou o desenvolvimento de forças sociais que pudessem oferecer a uma tal genialidade um suporte histórico-material - e este suporte, concretamente: uma classe social a que se pudesse imputar a tarefa de construir um mundo novo, não existia para os socialistas utópicos. Os utópicos, à falta deste suporte, recuperaram o legado ilustrado sem poder estabelecer a crítica do seu traço idealista-iluminista - e é este traço que está na base da sua projeção utópica.
A herança ilustrada e o utopismo
Evidentemente, o socialismo utópico não pode ser reduzido ao pensamento de Saint-Simon, Fourier e Owen - consagrados, desde o esclarecedor estudo de Engels, de 1877 ("Do socialismo utópico ao socialismo científico", parte constitutiva d'O anti-Dühring, in Marx e Engels, 2, 1961: 283-338), como a Santíssima Trindade do utopismo -; com efeito, o elenco dos socialistas utópicos é muito mais amplo e abrangente . E mesmo na consideração dessa tríade, há que se levar em conta, para além das suas diferenças, a distinta evolução de cada um desses pensadores . Contudo, há neles um elemento comum: precisamente a base idealista-iluminista na proposição de alternativas à ordem burguesa.
O procedimento dos pais fundadores do socialismo utópico passa, em primeiro lugar, por uma crítica da ordem pós-revolucionária - e, aqui, eles prolongam a matriz da crítica social fundada pela Ilustração, assentada na defesa do racionalismo, do humanismo e da liberdade (que recebe, entre os três, tratamentos diferentes); nesta crítica, os utópicos (muito especialmente Fourier) vão bastante além dos ilustrados (inclusive Rousseau): já experimentando as seqüelas da ordem pós-revolucionária, eles não partilham de quaisquer das "ilusões heróicas" dos ilustrados. Em segundo lugar, os utópicos processam a construção de um modelo ideal societário alternativo à ordem burguesa, matrizado a partir dos valores ilustrados - e é precisamente um tal modelo, situando a socialidade no limite exterior da ordem burguesa, que eles oferecem como solução à ordem estabelecida. Se a essência utópica da sua proposição reside em ela não proceder do movimento real da sociedade , mas de uma modelagem intelectiva (por mais engenhosa que fosse), a hipoteca idealista-iluminista reside no modo de concretizar a proposição.
 Aqui, os utópicos procedem rigorosamente como os ilustrados: a concretização histórica do seu projeto derivará da força da razão. Paradoxalmente, estes grandes críticos da ordem burguesa pós-revolucionária não visualizam outra forma de superar a sociedade burguesa senão pelos imperativos racionais: é a superioridade racional (e, por conseqüência, ético-moral, no melhor estilo iluminista) do seu modelo que pode torná-lo viável. Do mesmo modo que nos ilustrados, a solução utópica é apresentada como pertinente ao gênero humano, à sociedade como um todo; e, do mesmo modo como nos ilustrados, a viabilização da solução utópica é função de uma vontade (política) genérica, que não diz respeito a interesses particulares - donde, no seu esforço transformador, o peso das experiências (que funcionariam como exemplos persuasórios) e a convocação para a ação sem qualquer discriminação de classe .
A importância do socialismo utópico para a constituição do movimento socialista revolucionário é absolutamente inconteste: Engels, em páginas antológicas, observou de Saint-Simon a "amplitude genial de visão, que lhe permite conter já, em germe, quase todas as idéias não estritamente econômicas dos socialistas posteriores"; de Fourier, fez notar a significação da "crítica profunda das condições sociais existentes" e o seu "espírito jovial", que lhe permitiu ser "um dos maiores satíricos de todos os tempos"; de Owen, "um condutor de homens como poucos", afirmou que ao seu nome estavam ligados "todos os movimentos sociais, todos os progressos reais registrados na Inglaterra em interesse da classe trabalhadora". E, de todos os três, Engels destaca "os germes geniais de idéias e as idéias geniais" (Engels, in Marx e Engels, 2, 1961: 311, 312, 313 e 309).
Entretanto, os fundadores de uma tradição crítica e política que desaguaria na constituição do moderno socialismo revolucionário não foram capazes de pensar a revolução: mesmo aspirando à superação do mundo burguês, fizeram-no prisioneiros das conseqüências do traço idealista-iluminista dos ilustrados: o reformismo ilustrado é o seu campo de movimentação. Mas não foram capazes de liberar-se deste limite absoluto (e, por isto, apesar de toda a sua relevância, o socialismo utópico não transcendeu praticamente o mundo burguês) por razões que lhes escapavam. Razões pertinentes a um suporte histórico-material novo, qualificado para propiciar à crítica social da ordem burguesa uma perspectiva teórico-prática.
Um outro herdeiro da Revolução
A burguesia vitoriosa, com a maior parte do butim, de uma parte, e os socialistas utópicos, fazendo a sua crítica, foram os grandes herdeiros da Revolução. Mas não foram os únicos.
Já em 1797 surgia, na resistência à política do Diretório, um fio vermelho que, por toda a primeira metade do século seguinte, haveria de costurar a crítica prática da ordem burguesa, tecendo as vestimentas de um outro protagonista histórico, que reivindicaria a herança da Revolução. Sai naquele ano o Manifesto dos iguais, ideado por G. Babeuf e redigido por S. Maréchal, expressão de um jacobinismo que, extravasando a república que consagra a propriedade como direito natural, propõe a comunidade de bens (Soboul, 1981). A conjuração dirigida por Babeuf é abortada, mas a primeira objetivação do que ulteriormente seria conhecido como ideário comunista não se perderia: pela memória devida à Buonarroti, formaria, a partir da Revolução de Julho, as vanguardas trabalhadoras francesas, derivando no blanquismo heróico das conspirações e das barricadas .
Do outro lado da Mancha, este fio vermelho não se tece na conspirata, mas nos espaços fabris onde o capital instaura o seu reino de exploração aberta: começa com o ludismo, primeira demonstração efetiva, como quis Thompson (1987, III), da força dos trabalhadores - e vai avançar, a céu aberto, a partir dos anos vinte, até a constituição do cartismo (Dolléans, s.d.), no qual Engels identificará o germe do partido proletário. 
Se, na França, aquele fio vermelho dará na constituição das sociedades secretas, na Inglaterra da "Carta do Povo", com uma industrialização e uma urbanização mais velozes, derivará nas coalizões, de que brotará o movimento sindical moderno.
Estou me referindo, como é óbvio, à emergente classe operária, ao proletariado, o acólito necessário da construção do mundo burguês. O proletariado é um outro herdeiro da Revolução, e num duplo sentido: de um lado, os valores que vinham da Ilustração diziam-lhe respeito pela universalidade humano-genérica com que foram enunciados e anunciados; de outro, era-lhe fundamental demandar e reivindicar a concretização daqueles valores, dadas as efetivas condições de sua existência social, determinada pelas modalidades de exploração implementadas pelo capital na primeira metade do século .
Este personagem histórico vai se desenvolver, durante os primeiros cinquenta anos do século XIX, construindo um mundo - o mundo proletário - onde não ressoará com força a crítica téorica (social) que resgata a Ilustração. O socialismo utópico não teve nenhum conteúdo de classe - suas projeções se estruturaram, como vimos, numa referência à "humanidade"; precisamente o seu traço idealista-iluminista sinaliza a falta de um agente histórico capaz de realizar a projeção com que se opõe à ordem burguesa. A classe trabalhadora típica do capitalismo industrial, constituindo o movimento operário nos marcos do mundo proletário, travará o seu combate anticapitalista produzindo autonomamente o que pôde no seu isolamento: suas concepções alternativas à ordem do capital advirão seja da herança jacobina (o veio a que se prendeu Babeuf e, posteriormente, o blanquismo), seja, no caso inglês, da emersão de laços de mutualismo e solidariedade.
Por isto mesmo, o movimento operário será muito mais amplo que o movimento socialista e na sua origem não manteve conexões significativas com este. Somente nos anos quarenta do século XIX movimento socialista e movimento operário encontrarão canais e condutos de vinculação - mas, apesar disto, ambos não se confundirão, ainda que desta interação surja, na metade derradeira do século, o movimento socialista revolucionário.
Enquanto não se processou a interação que tem por espaço temporal a década de quarenta, as expressões anticapitalistas do movimento operário oscilaram entre o conspirativismo de raiz jacobina (correspondente às tradições políticas e às condições do desenvolvimento capitalista na França) e as mobilizações massivas em busca de soluções legais para os trabalhadores (na Inglaterra, depois da crise do ludismo) . No primeiro caso, o anticapitalismo tomava corpo no projeto de uma transformação social substantiva, que tinha como eixo a idéia de uma insurreição; estava entendido que a Grande Revolução (a de 1789) não se completara, permanecera inacabada - e a realização do reino da igualdade (a comunidade de bens vislumbrada por Babeuf) passava necessariamente por uma ruptura social onde a ditadura proletária (a expressão é de Blanqui) exerceria a função de Ano I da nova ordem; aqui, como se vê, o projeto proletário aparece como um símile da República Jacobina. No segundo caso, o projeto alternativo à ordem burguesa transitava pela extensão e universalização dos institutos e instituições que esta mesma ordem já oferecia, ainda que numa escala restrita; donde a programática transformadora operar buscando a ampliação daquelas instituições (não se esqueça que a demanda original mobilizadora da Carta do Povo era uma reforma da legislação eleitoral). Naturalmente que estas eram as referências dominantes; mas, numa realidade como noutra, tendências diferentes se faziam notar. 
Isto significa que o movimento operário, nas suas expressões anticapitalistas, até os anos quarenta do século XIX, não conseguiu transcender as orientações políticas e culturais que já estavam dadas, para além das suas fronteiras, na sociedade pós-revolucionária. A tensão contida na herança moderna - na verdade, a tensão entre reforma e revolução - estava inteiramente posta nas expressões anticapitalistas que, na década de quarenta, vão sofrer uma inflexão radical.
 
Capítulo 2
Marx e a crítica da reforma
 
A década de quarenta do século XIX constitui, em meu entender, um marco fundamental no processo de desenvolvimento da relação dialética reforma/revolução no âmbito do movimento socialista.
Em primeiro lugar, porque é então que surge o  movimento socialista revolucionário de base proletária. Em segundo lugar, porque este surgimento se dá quando a crise contida nas diferenças e contradições da cultura pós-revolucionária se soluciona teoricamente. Na verdade, ambos - aquele surgimento e esta solução - estão na base de um só processo: a emergência da teoria social de Marx. E esta emergência, por sua vez, se realiza com o aprofundamento do corte, que, como vimos, vem desde antes, entre reforma e revolução, graças a uma crítica radical da perspectiva reformista.
Todo este complexo de problemas será tangenciado neste capítulo, cujo eixo, necessariamente, é a crítica marxiana do reformismo.

O socialismo revolucionário
de base proletária
Já assinalei que o movimento socialista não se reduz às suas expressões proletárias (como, aliás, o atesta o chamado socialismo utópico); também já sugeri que as propostas socialistas imediatamente proletárias não são necessariamente revolucionárias. Cabe, agora, desenvolver algumas reflexões que permitam clarificar esse nó de problemas e circunscrever com rigor as noções com que estou trabalhando e continuarei operando na seqüência do meu discurso.
Até os anos quarenta, como indiquei no capítulo precedente, o pensamento anticapitalista pós-revolucionário encontrou expressões socialistas, formuladas, de um lado, por intelectuais e dirigentes políticos sem vinculações com os trabalhadores e, por outro, por protagonistas que buscavam nexos com a classe obreira (recorde-se Owen e Blanqui). Entretanto, até a década em questão, não é apropriado falar-se num pensamento socialista revolucionário proletário, especialmente porque esta classe social não fora colocada, nem se colocara, como sujeito revolucionário. Efetivamente, mesmo as propostas que, até então, se encaminharam para o comunismo (recorde-se o apontamento de Engels sobre a evolução final de Owen) visualizavam os trabalhadores apenas como destinatários dos seus conteúdos; e, no caso de revolucionários autenticamente legatários da tradição babeuvista, os trabalhadores eram vistos, principalmente, como massa a ser conduzida. 
Compreendem-se estes traços da cultura socialista até os anos quarenta se se os relaciona com o processo real e efetivo da movimentação operária que até então se processava. Do ludismo inglês ao cartismo, das associações secretas ao conspirativismo francês, o que era visível era o protesto operário, de natureza basicamente defensiva ante as modalidades brutais da exploração do capital (lembre-se que, no geral, e inclusive mesmo em função do grau determinado de desenvolvimento das forças produtivas, à época a exploração capitalista realizava-se especialmente mediante a extração de mais-valia absoluta). Nestas condições, mesmo os pensadores e políticos solidários com a classe operária tendiam a pensá-la mais como vítima da ordem pós-revolucionária do que como um sujeito histórico capaz de voltar-se contra ela . 
Porém, é precisamente nos anos quarenta que, no plano histórico-concreto da Europa Ocidental, o proletariado experimenta um processo de amadurecimento (diretamente condicionado pelo desenvolvimento das lutas de classes) que inaugura, no plano histórico-universal, um novo patamar no seu protagonismo sócio-político. Ao longo deste decênio, seja na via inglesa da luta pela ampliação dos institutos e direitos políticos democráticos, seja na via francesa do confronto aberto com a burguesia, mas seja ainda na conformação de blocos/alianças pela independência nacional - em todos estes níveis, o proletariado se afirma como classe social portadora de um projeto social  que não está subordinado a qualquer direção externa à classe.
O exame dos anos quarenta mostra-o com evidência: na Inglaterra, o auge do movimento cartista, com as coalizões operárias (o sindicalismo) multiplicando-se como cogumelos e conduzindo-se com radicalidade em todas as frentes da luta social, da reivindicação pela limitação legal da jornada de trabalho ao apoio no combate à lei dos cereais; na França, com uma precipitação social e organizativa que levaria às sublevações de fevereiro e junho de 1848; na Alemanha, com a mobilização que, rompendo com os compromissos da hesitante burguesia com Frederico Guilherme IV, iniciar-se-ia a partir da sublevação dos tecelões da Silésia e desaguaria nas demandas democrático-populares das insurreições de 1848-1849; na Itália do norte e na Europa Central, com a composição de classes em defesa da autonomia (cf. Claudín, 1975; Hobsbawm, 1989).  Em suma: na década de quarenta, que culminaria com os eventos de 1848-1849, o protesto operário transita de sua condição defensiva para o estabelecimento de possibilidades objetivas para a formulação de um projeto social classista.
  Este complexo movimento social real foi argutamente apreendido por Marx e formulado por ele com rigor teórico: o que se processa na década de quarenta, em nível histórico-universal, é a transformação do proletariado de classe em si em classe para si . Esta transformação sustenta a mudança de estatuto sócio-político do proletariado: ele se põe como sujeito sócio-político autônomo.
Com este novo dado, histórico-concreto, a cultura anticapitalista pós-revolucionária encontra um suporte sócio-material também novo: os vetores socialistas que nela existiam podem integrar-se com um movimento propositivo que passa a contar com uma base de classe determinada. Torna-se possível vincular a crítica social radical à ordem do capital aos precisos interesses de uma classe social cuja afirmação histórica está na razão direta da luta revolucionária contra o capital. Torna-se possível à tradição socialista da modernidade adquirir um novo estatuto: converter-se na expressão revolucionária do proletariado.
É evidente que se está operando, aqui, com uma possibilidade objetiva, e não com um dado bruto factual. Para que esta possibilidade se transforme em realidade será necessária a conjugação de fatores de várias ordens. Mas só a possibilidade já introduz um conjunto de determinações novas, das quais a mais importante é a seguinte: o surgimento de um suporte sócio-material (o proletariado) para o projeto socialista não só altera o próprio conteúdo deste projeto (com uma marca de classe específica), como, sobretudo, implica diferenciações no interior daquele projeto: deslocam-se e aprofundam-se as distinções não só entre as correntes socialistas, mas os próprios cortes entre reforma e revolução rebatem em expressões classistas (portanto, não se terá somente a possibilidade de um projeto revolucionário proletário, mas ainda a de um projeto reformista proletário).
Assim, a partir dos anos quarenta, o espectro da tradição socialista se amplia e diversifica: a possibilidade de um projeto socialista revolucionário proletário entra em concorrência e em disputa com as vertentes já existentes na cultura anticapitalista pós-revolucionária e, ao mesmo tempo, promove a diferenciação no interior daquela cultura.
A expressão teórica do proletariado como sujeito revolucionário: a teoria social de Marx
	A emergência do proletariado como sujeito revolucionário (que, como acabei de indicar, verificou-se nos anos quarenta do século XIX como um processo social real e objetivo), ou,  se se quiser, a passagem do proletariado de classe em si para classe para si, deu-se no marco de um conjunto de transformações sócio-culturais de alcance histórico-universal. Estas transformações podem ser sinalizadas com a referência à crise que atinge a cultura pós-revolucionária entre, aproximadamente, 1830 e 1850 - crise a que aludi indiretamente no capítulo anterior (cf. o item "O adeus burguês à revolução").
Qual a essência desta crise? Em  poucas  palavras, a  essência 
da crise pode ser localizada no fato de as implicações da dimensão emancipatória da razão moderna (ilustrada) colidirem abertamente com a dominação de classe da burguesia; do ponto de vista prático-histórico, o protagonismo proletário na década de quarenta (cujo emblema é 1848) comprova o antagonismo entre aquela dimensão e a ordem do capital; do ponto de vista ídeo-teórico, são indicadores suficientes dessa incompatibilidade a transformação da crítica social em ciência positiva (a sociologia) e a despolitização da questão social, posta como objeto de trato técnico (cf. Capítulo 1). A resultante, também já se a viu, é que a cultura adequada à dominação burguesa recupera da Ilustração a racionalidade instrumental, deixando a seus críticos a herança emancipadora. Ora, esta crise explode na década de quarenta e o saldo torna-se claro: o novo sujeito constituído pelo proletariado põe-se como legatário dos conteúdos liberadores da Ilustração.
Na instância da teoria, o papel protagônico que o proletariado irá assumir propicia a abertura de alternativas para a crise sócio-cultural. Obviamente que esta correlação entre processo sócio-político (o emergente protagonismo operário) e processo ídeo-teórico (a alternativa para a crise sócio-cultural) dista muito da linearidade, sendo, antes, espaço de múltiplas mediações. Todavia, não parece haver motivos para duvidar que a construção teórica não só refletiu o processo histórico-real como, privilegiadamente, o antecipou . Na verdade, a reflexão teórica que corresponde ao novo sujeito sócio-político, a teoria social de Marx - ela mesma condensando a dimensão emancipadora da Ilustração, mas também toda a tradição progressista anterior da cultura ocidental  -, tem a sua estrutura fundamental construída e elaborada um pouco antes da explosão de 1848.
Um dos mais importantes estudiosos marxistas observou que a crise a que estou aludindo fez entrecruzar, 
"de uma parte, a dissolução da escola ricardiana na Inglaterra, quando se começa a extrair da teoria do valor-trabalho dos clássicos as consequências socialistas; de outra, a dissolução do socialismo utópico na França, processo que se inicia com os primeiros intentos para buscar, ainda que só por tateios, o caminho para o socialismo" (Lukács, 1968: 471). 
Na continuidade imediata do seu pensamento, diz o autor que a solução de ambos os impasses deu-se com "o aparecimento do materialismo histórico e da economia política marxista" (id., ibid.). É evidente que a teoria social de Marx só pode aparecer como solução se se a considera a partir da perspectiva de classe do proletariado. Ora, é neste sentido que argumenta um ensaísta brasileiro: na sua ótica, "a teoria social de Marx só se sustenta enquanto reflexão revolucionária da classe operária", porquanto a relação entre Marx e o proletariado 
"é um nexo imanente que ultrapassa de longe o enlace político. Ainda que este não se realizasse empírica e historicamente, o nexo estaria dado, porque é o proletariado [...] que, pela sua existência mesma, viabiliza a dialética social a partir da perspectiva do processo do trabalho" (Netto, 1990: 66).
Esta concepção acerca da vinculação da teoria social de Marx com o proletariado - mais exatamente: a interpretação da teoria marxiana como expressão teórica do movimento (e das suas implicações) constitutivo do proletariado como sujeito sócio-político autônomo - já foi longamente tematizada, e não me proponho, aqui, ao resgate dessa documentação, que julgo suficiente . O que me importa salientar é que, constituindo-se como teoria social exatamente na década de quarenta, ela se constitui justamente como um movimento de crítica aos projetos reformistas da época: se há uma quase geral concordância quanto ao fato de que, por volta de 1844, Marx deixa de ser um democrata radical para tornar-se comunista (Cornu, 1976; Lukács, 1978; Frederico, 1995); se, para além da polêmica  acerca da fratura entre o jovem Marx e o Marx da maturidade (Althusser, 1979; Thompson, 1981), acorda-se em que, entre 1843 e 1847, Marx (em conjunto com Engels), constrói as bases mais fundamentais do seu pensamento (Löwy, 1978; Mandel, 1968) - então não pode haver qualquer dúvida acerca da relação entre a fundação da teoria social e a crítica do reformismo por Marx.
É claro que não estou postulando a idéia de que é  a partir da crítica do reformismo que Marx elabora a sua teoria; o que estou sustentando é que a elaboração dessa teoria, nos seus passos iniciais, todavia fundamentais, foi levada a cabo concomitantemente à elaboração da crítica do reformismo. A documentação textual, neste aspecto, é inequívoca: em alguns passos d'A sagrada família..., mas de forma substantiva n'A ideologia alemã e na Miséria da filosofia, tanto quanto no Manifesto... - todos textos absolutamente fundantes da teoria social marxiana - a polêmica com o reformismo é componente nodal do discurso marxiano (ou, conforme as obras em questão, de Marx e de Engels ). Na verdade, dentre todos os textos seminais de Marx na década de quarenta, só não se encontra uma polêmica explícita com o reformismo nos Manuscritos de 1844. Este indicador textual me parece suficiente para calçar a minha hipótese: a crítica do reformismo faz parte do processo de constituição da teoria social marxiana. Hipótese por outro lado inteiramente lógica, uma vez que a teoria social de Marx se relaciona imanente e inerentemente à perspectiva de classe do proletariado - vale dizer: posta esta relação, construir a autonomia da expressão teórica de um sujeito sócio-político autônomo (a classe operária para si) exige a crítica de expressões outras que se pretendem vinculadas à classe. Assim, a crítica de Marx aos projetos reformistas, na década de quarenta, é parte da construção do projeto classista autônomo, isto é, do socialismo revolucionário de base proletária. 


A crítica marxiana ao
"socialismo verdadeiro"
A sagrada família, primeira produção conjunta de Marx e Engels, publicada em 1845, é o passo inicial do acerto de contas de ambos com seu próprio passado (acerto de contas que se concluiria com A ideologia alemã): opera uma crítica radical do pensamento filosófico alemão pós-hegeliano, centrada na produção de Bruno Bauer e dos intelectuais a ele vinculados - para os quais, em meados da década de quarenta, o Espírito (crítico e criador) estava em direta oposição às massas (grosseiramente materialistas e vulgares).
Nesta crítica radical (que antecipa muito da desmistificação da consciência filosófica, desmistificação que é o fulcro d'A ideologia alemã), o discurso marxiano opõe freqüentemente, às elucubrações de Bauer e seus sequazes, a crítica social contida no pensamento socialista francês. O alvo de Bauer, com a sua crítica crítica, era desqualificar toda e qualquer oposição real ao estado de coisas existente nos Estados da confederação germânica; para tanto, movia uma verdadeira "campanha contra a Revolução [francesa], o materialismo e o socialismo" (Marx e Engels, s.d.: 204); Marx assinala, pois, que, ao invés de oferecer uma crítica à ordem, Bauer e seus discípulos realizam uma apologia do status quo. Na verdade, assegura Marx, a crítica social, se quiser ter futuro na Alemanha, deve recusar as proposições de Bauer e vincular-se a uma tríade não-filosófica, "a revolução, o socialismo, o comunismo",  "obra de povos inteiros, [...] obra de uma série de franceses e ingleses profanos" (id., p. 205). No interior dessa obra, especialmente daquela de uma série de franceses, Marx destaca vigorosamente a de Proudhon, fazendo a sua defesa contra as deformações de suas posições, operadas pela crítica crítica; muito especialmente, Marx toma O que é a propriedade? e elogia longamente o seu caráter radical, contrapondo-o às artificiosas abstrações dos críticos críticos, ao mesmo tempo em que mostra a sua importância científica . Mais adiante (cf. infra), ver-se-á que Marx, sem deixar de valorizar o texto proudhoniano a que aqui faz referência, submeterá também o socialista francês a uma crítica demolidora.  
O combate às posições de Bauer, que Marx conduz ao limite n'A sagrada família, já fora de algum modo elaborado num texto anterior, A questão judaica (Marx, 1969), onde, contra Bauer e sua visão mistificada dos direitos do homem, Marx estabelece uma clara distinção entre emancipação política e emancipação humana, com esta só sendo possível para além do horizonte burguês. A sagrada família retoma esta ponta crítica (cf. Marx e Engels, s.d.: 132 e ss), mas já o faz com concretas referências ao tema do socialismo. Este, entretanto, só seria objeto de discussão mais detida quando, no quarto capítulo d'A ideologia alemã, Marx se confronta abertamente com o verdadeiro socialismo . Tem-se aqui, de forma aberta, a primeira grande polêmica de Marx contra o reformismo - e dois elementos devem ser considerados para a correta compreensão do posicionamento de Marx em face desta vertente política, tipicamente alemã. 
O primeiro elemento diz respeito à evolução do próprio Marx. O intelectual que, a partir de 1844, já se reconhecia como comunista e que, no curso deste e do ano subsequente, vinculara-se ao movimento operário e suas frações mais avançadas, estava agora, no exílio belga, em plena atividade organizadora (inclusive em sintonia com a Liga dos Justos, a que, pouco tempo depois, aderiria no mesmo compasso em que influiria decisivamente para a sua transformação em Liga dos Comunistas): dirigia, de fato, o Comitê de Correspondência Comunista de Bruxelas  e situava-se já na ala mais revolucionária das tendências socialistas proletárias.
O segundo relaciona-se ao verdadeiro socialismo: tratava-se de uma vertente política alemã, orientada por Karl Grün, Otto Lüning e Hermann Pütmann, entre outros, que desfrutava, à época e não casualmente, de amplo acesso à imprensa alemã - não casualmente porque suas posições contribuíam para impedir uma possível unidade das forças que se opunham ao absolutismo prussiano .
Curiosamente, os adeptos do verdadeiro socialismo apresentavam-se como "radicais": tomavam a crítica do capitalismo feita por Saint-Simon e Fourier e, com ela, repeliam os esforços para desenvolver o capitalismo na Alemanha - ou seja, apresentavam-se como anticapitalistas. Marx demonstra a operação mistificadora do seu procedimento: ao ignorar as reais condições dos estados componentes da Confederação germânica, esta proposta anticapitalista "radical" não só impedia uma unidade das forças democráticas e liberais (uma vez que estas apresentavam demandas "capitalistas", como a Constituição, o voto universal, etc.), como, objetivamente, servia à manutenção da miséria alemã. O êxito da propaganda do verdadeiro socialismo residia, segundo Marx, em que ela 
"não se dirige [...] aos proletários, mas às duas classes humanas mais numerosas da Alemanha, a dos pequeno-burgueses, com suas ilusões filantrópicas, e a dos ideólogos destes mesmos pequeno-burgueses, os filósofos e seus discípulos; dirige-se, em geral, à consciência 'ordinária' e extraordinária que atualmente impera na Alemanha" (Marx e Engels, 1970: 545). 
O essencial da crítica marxiana incide sobre os suportes sociais do verdadeiro socialismo. Escreve Marx que esta vertente 
"limita-se a expressar de um modo mais claro e mais preciso as idéias dos pequeno-burgueses, cujas devotas aspirações e cujos devotos desejos tendem também à abolição da ausência de propriedade" (op. cit., p. 564).
Este é o ponto central da crítica marxiana: a referência de classe do socialismo verdadeiro. O gume da crítica de Marx não toca o verdadeiro socialismo tão somente pelas suas implicações imediatamente políticas - ou seja, a divisão entre as forças anti-absolutistas; o que move a crítica marxiana é o substrato classista do socialismo verdadeiro - este é o responsável por sua programática fundada em devotos desejos, em ilusões filantrópicas. Adiante, ao tratar de Proudhon, voltarei a este ponto, que desde já deve ser sublinhado; mas cabe assinalar que Marx não se atém apenas a ele.
Realmente, quando analisa os textos do mais conhecido dos socialistas verdadeiros, Karl Grün, Marx demonstra a sua falta de originalidade (seus plágios de Stein e Reybaud), bem como as deformações a que submete o pensamento de Saint-Simon e Fourier (cf. Marx e Engels, 1970: 600 e ss). Para além disto, Marx revela os enganos e os equívocos das considerações de Grün e opera uma dissecação dos seus procedimentos analíticos e lógicos, debitando boa parte de seus erros à ignorância no trato das determinações econômico-políticas (cf. id., p. 610 e ss). 
Para sumariar o andamento da crítica marxiana, eu diria que ela se desenvolve em dois planos conjugados: de uma parte, uma crítica textual, "interna"; de outra, uma crítica contextual, "externa". A primeira tem por objeto a estrutura lógica da elaboração de Grün, assim como a pertinência e a justeza de suas análises; a segunda tem por objeto a funcionalidade de classe dessa elaboração. Entendo - e a análise de outras críticas marxianas, que farei a seguir, poderá mostrá-lo - que este é o estilo de trabalho intelectual  que caracterizará toda a produção de Marx. 
O mais relevante, porém, é deixar de manifesto que o centro da recusa marxiana do socialismo verdadeiro reside na sua remissão de classe.
A crítica ao reformismo
de Proudhon
Já se viu que, n'A sagrada família, Marx toma abertamente a defesa de Proudhon contra Bauer e seus asseclas - e, também abertamente, lhe confere um enorme crédito enquanto economista político. Poucos anos depois, a posição de Marx se alterará radicalmente: quando, no primeiro semestre de 1847, dá à luz a Miséria da filosofia, escreve, no seu prólogo, que 
" o Sr. Proudhon tem a infelicidade de ser singularmente desconhecido na Europa. Na França, tem o direito de ser um mau economista, porque passa por ser um bom filósofo alemão. Na Alemanha, tem o direito de ser um mau filósofo, porque passa por ser um dos mais vigorosos economistas franceses. Nós, na qualidade de alemão e economista ao mesmo tempo, quisemos protestar contra este duplo erro" (Marx, 1989: 35).
Esta mudança radical não se deve à natureza das relações pessoais estabelecidas entre os dois homens, que se conheceram em Paris e que mantiveram um ativo intercâmbio intelectual entre 1845 e 1846 . Deve-se, antes, à evolução em sentido inverso que ambos experimentaram na década de quarenta. Marx, sabemo-lo, evoluiu do radicalismo democrático para a perspectiva revolucionária proletária (comunista); Proudhon, ao contrário, desloca-se de uma posição revolucionária para uma angulação reformista.
Efetivamente, entre o Proudhon de O que é a propriedade?, escrito de 1841 (e justamente aquele que Marx, n'A sagrada família, defende ardorosamente contra as falsificações da crítica crítica), e o Proudhon de Filosofia da miséria ou o sistema das contradições econômicas, de 1846, medeia o espaço da metamorfose de um pensador que deixa de ver na propriedade um roubo para pretender cozinhá-la a fogo lento .
O estilo de trabalho intelectual a que me referi linhas atrás aparece cristalinamente na Miséria da filosofia: Marx realiza uma crítica textual e contextual de Proudhon. No primeiro nível, mostra percuciente e longamente, através de uma minuciosa análise da categoria econômico-política do valor e sua incorporação por Proudhon, a inépcia científica do pensador francês. Como conseqüência da sua fragilidade analítica - prossegue o argumento marxiano -, Proudhon não consegue apreender teoricamente os traços mais decisivos do movimento do capital e, por via de implicação, as respostas revolucionárias da classe operária (cf. Marx, 1989, especialmente o capítulo 2). No nível da crítica interna, o que Marx demonstra com rigor e detalhe é que Proudhon não apenas banalizou vulgarmente as determinações da Economia Política (o que, por si só, lhe vedava a compreensão da sociedade burguesa), mas, ainda, mistificou-as idealisticamente: 
" Os economistas nos explicam como se produz nestas relações dadas [relações de produção burguesas], mas não nos explicam como se produzem estas relações, isto é, o movimento histórico que as engendra. O Sr. Proudhon, tomando estas relações como princípios, categorias, pensamentos abstratos, tem apenas que ordenar esses pensamentos, que, alfabeticamente dispostos, encontram-se no final de qualquer tratado de economia política. Os materiais dos economistas são a vida ativa e atuante dos homens; os materiais do Sr. Proudhon são os dogmas dos economistas. Mas, a partir do momento em que não se persegue o movimentos histórico das relações de produção, de que as categorias são apenas a expressão teórica, a partir do momento em que se quer ver nestas categorias somente idéias, pensamentos espontâneos, independentes das relações reais, a partir de então se é forçado a considerar o movimento da razão pura como a origem desses pensamentos" (Marx, 1989: 102-103).
Porém, a crítica interna de Marx se conjuga com a crítica contextual: a inépcia científica de Proudhon não é a única fonte dos equívocos das suas propostas políticas - o que responde pela limitação da proposta socialista de Proudhon é precisamente a sua referencialidade de classe: o que o impede de apreender o potencial progressivo do sindicalismo operário (as coalizões, no léxico marxiano da época), bem como o leva a subestimar a relevância da participação política dos trabalhadores enquanto classe, é o fato de ele pretender,
"como homem de ciência, pairar acima de burgueses e proletários, [sem passar de ser um] pequeno-burguês que oscila, constantemente, entre o capital e o trabalho, entre a economia política e o comunismo" (Marx, 1989: 119).
Ou seja: o fundamental remete à perspectiva de classe de Proudhon.
A Miséria da filosofia, ainda que centrada na crítica a Proudhon, tem um significado especial na evolução intelectual de Marx e, sobretudo, na constituição da sua teoria social. Sucedendo ao primeiro encontro de Marx com a economia política (documentado nos Manuscritos de 1844), ao acerto de contas com seu passado filosófico (expresso n'A sagrada família e concluído n'A ideologia alemã), ao amadurecimento de sua original concepção do desenvolvimento histórico-social (formulada n'A ideologia alemã e condensada nas aporias críticas das Teses sobre Feuerbach), e já refletindo as experiências do intelectual que integrou-se no movimento operário organizado, a Miséria da filosofia é a 
"primeira explicitação sistematizada dos fundamentos da moderna teoria social. [...] O que surge na Miséria da filosofia é o primeiro desenho do projeto teórico a que Marx dedicará o essencial da sua vida: a análise de conjunto do modo de produção capitalista" (Netto, in Marx, 1989: 30 ).
Esta observação é importante porque, ademais de fazer a apreciação da perspectiva de classe de Proudhon - que não lhe permite ver mais além da ordem burguesa  -, na obra "que Marx sempre considerou como parte integrante de sua obra científica de maturidade" (Naville, apud  Mandel, 1968: 55), nesta obra Marx oferece um comentário crítico que contém importantes determinações acerca da relação classe social/conhecimento teórico, relação que, de fato, está no cerne da sua crítica ao reformismo. Depois de arrolar os principais traços dos reformadores sociais burgueses (a escola humanitária e a escola filantrópica), escreve: 
"Assim como os economistas são os representantes científicos da classe burguesa, os socialistas e os comunistas são os teóricos da classe proletária. Enquanto o proletariado ainda não está bastante desenvolvido para se constituir como classe e, conseqüentemente, a sua própria luta com a burguesia não tem ainda um caráter político; enquanto as forças produtivas ainda não estão bastante desenvolvidas, no seio mesmo da burguesia, para possibilitar uma antevisão das condições materiais necessárias à libertação do proletariado e à formação de uma sociedade nova, estes teóricos são apenas utopistas que, para amenizar os sofrimentos das classes oprimidas, improvisam sistemas e correm atrás de uma ciência regeneradora. Mas, à medida que a história avança e, com ela, a luta do proletariado se desenha mais claramente, eles não precisam mais procurar a ciência em seu espírito: basta-lhes dar conta do que se passa ante seus olhos e se tornarem porta-vozes disto. Enquanto procuram a ciência e apenas formulam sistemas, enquanto se situam nos inícios da luta, eles vêem na miséria somente a miséria, sem observarem nela o lado revolucionário, subversivo, que derrubará a velha sociedade. A partir desta observação, a ciência produzida pelo movimento histórico, e que se vincula a ele com pleno conhecimento de causa, deixa de ser doutrinária e se torna revolucionária" (Marx, 1989: 118-119).
  Esta determinação é da maior importância: nela se contêm as precisões que, de um lado, explicam a própria evolução do pensamento socialista (do utopismo à análise científica) à base do amadurecimento das lutas operárias; de outro, porque estabelece claramente o critério da perspectiva de classe como elemento-chave na elaboração de uma teoria revolucionária. Não é uma extrapolação afirmar que, ao longo de toda a sua obra posterior, Marx valer-se-á deste critério como componente central para a identificação da direção ídeo-política implicada nas reflexões teóricas  - como se constata no texto imediatamente posterior à Miséria da filosofia, o Manifesto do partido comunista.


O Manifesto do partido comunista
 e a crítica ao reformismo
Originalmente, como se sabe, o Manifesto... é o documento programático da Liga dos Comunistas, nova denominação da Liga dos Justos após o congresso realizado em finais de 1847. Enquanto explicitação da plataforma dos comunistas - vale dizer: do projeto revolucionário proletário -, o documento traz em si a necessidade de demarcar esta plataforma no conjunto do pensamento e das proposições socialistas que estavam na agenda político-social da época . Por isto mesmo, e na obediência a uma lógica expositiva solidamente estruturada, logo depois da exposição do programa dos comunistas (capítulo II), seus autores, Marx e Engels, cuidam da analisar a "literatura socialista e comunista" (capítulo III) - no próprio andamento em que ressurge a crítica ao reformismo.
No Manifesto..., portanto, a crítica ao reformismo cumpre, imediatamente, a tarefa de traçar com nitidez a linha divisória entre o projeto revolucionário proletário (vale dizer: comunista) e outros projetos socialistas. Porém, e ao mesmo tempo, essa crítica opera com o objetivo de combater, do ponto de vista ideológico, as incidências daqueles projetos sobre o movimento operário - e por uma razão elementar: a autonomia da ação política do proletariado, também função de um projeto sócio-político explicitamente classista, aparecia a Marx como condição para o protagonismo de vanguarda dos comunistas - afinal, para os autores do Manifesto..., "a emancipação dos operários tem de ser obra da própria classe operária" . 
O Manifesto demarca o projeto comunista do
·	socialismo feudal - cujos principais expoentes foram os legitimistas franceses e a Jovem Inglaterra, expressando o repúdio aristocrático contra a sociedade burguesa moderna. A base de classe (aristocracia fundiária) dessa tendência condiciona claramente o seu conteúdo político (reacionário), a que é próximo o socialismo clerical ;
·	socialismo pequeno-burguês - cujo maior representante intelectual é Sismondi. Trata-se de uma tendência que sinaliza a condição instável da nova pequena burguesia que, apêndice da burguesia, é lançada às fileiras proletárias pela pressão econômica da concorrência. Refletindo as vacilações da sua base social classista, é, simultânea e objetivamente, reacionário e utópico;
·	socialismo verdadeiro (ou socialismo alemão) - aqui, os autores do documento retomam a crítica já feita a Karl Grün (cf. supra), assinalando sinteticamente que esta corrente serviu ao absolutismo não somente contra os trabalhadores, mas ainda contra segmentos burgueses liberais;
·	socialismo conservador ou burguês - emblematicamente simbolizado pelo Proudhon da Filosofia da miséria, reflete as concepções daquela "parte da burguesia [que] deseja remediar os males sociais para assegurar a existência da sociedade burguesa" . 
Ao classificar e sistematizar estes tipos de propostas socialistas, Marx (e Engels) não as subsume(m) diretamente ao reformismo. A leitura atenta do documento mostra que o elemento reformista comparece apenas praticamente no socialismo burguês (ou conservador). Mas está presente ainda no desenvolvimento de propostas socialistas utópicas (Saint-Simon, Owen, Fourier, etc.): originalmente progressistas e mesmo revolucionárias, foram perdendo este conteúdo à medida em que o proletariado amadureceu no processo das lutas de classes; com a classe operária colocando-se autonomamente (como sujeito, classe para si) no cenário sócio-político, aquelas propostas se degradaram numa espécie de novo messianismo, acabando por identificar-se seja com o reacionarismo, seja com o socialismo conservador (donde a presença de traços reformistas). Aliás, o Manifesto...  oferece uma determinação crucial para avaliar o socialismo utópico: 
"A importância do socialismo e comunismo crítico e utópico é inversamente proporcional ao desenvolvimento histórico. Na medida em que se desenvolve e ganha forma a luta de classes, perde esta elevação fantástica acima dela, esta luta fantástica contra ela, todo o valor prático, toda a justificação teórica. Se, por isso, os autores destes sistemas foram, em muitos aspectos, revolucionários, a verdade é que os seus discípulos formaram sempre seitas reacionárias. Perante o desenvolvimento histórico continuado do proletariado [...] continuam ainda a sonhar com a realização, a título de experiências, das suas utopias sociais, com a fundação de falanstérios isolados, com o estabelecimento de colônias no país [...] - e para a construção de todos estes castelos no ar têm de apelar à filantropia dos corações e das bolsas dos burgueses" (Marx e Engels, 1986: 118-119). 
Esta passagem é expressiva: mesmo o que foi revolucionário num estágio determinado do desenvolvimento histórico pode tornar-se mero reformismo filantrópico noutro estágio. E, mais uma vez, este desenvolvimento é pensado, na perspectiva marxiana, a partir da concreta maturação das lutas de classes.
Ora, é precisamente no curso desse desenvolvimento, nessa concreta maturação das lutas de classes, que o proletariado transita de classe da condição de classe em si  à classe para si. A culminação dessa maturação se exprime na articulação política do reconhecimento (consciência) de seus interesses específicos e históricos - e esta articulação é o partido comunista. O elemento organizativo, simultaneamente resultado daquela transição e substrato para o seu aprofundamento, adquire aqui um estatuto fundante: sem a organização político-partidária, o potencial subversivo da classe se esteriliza. Para Marx (e Engels), a instância político-partidária é crucial para a revolução: ela não "cria" a possibilidade revolucionária, mas é o elemento de direção sem o qual as possibilidades de ruptura com a ordem burguesa derivam em novas recomposições da sociedade comandada pelo capital. 

A categoria revolução
Até aqui, estou referenciando o que me parece central nos escritos de Marx, relativamente à crítica do reformismo, entre a sua assunção da perspectiva de classe do proletariado (1844)  e a redação do Manifesto - com a minha atenção se dirigindo para o nível mais abertamente político do discurso marxiano. A hipótese com que trabalho, assinalada páginas atrás (cf. o item "A expressão teórica do proletariado como sujeito revolucionário: a teoria social de Marx"), é clara: a crítica do reformismo é constitutiva da teoria social marxiana, cuja estrutura básica se constrói nos anos quarenta ; porém, a constituição da teoria marxiana extrapola largamente o nível político, no qual se evidencia a crítica do reformismo.
Não é meu objeto, nesta Tese, uma análise em profundidade do processo de constituição da teoria social de Marx - tema de larguíssima documentação, parte da qual examinei  e sobre a qual, noutra oportunidade, já me detive (Santos, 1994). Entretanto, faz-se necessária uma brevíssima incursão em tal processo, já que é ele que coloca os suportes teóricos sobre os quais Marx pode pensar, de modo radicalmente original, a revolução como categoria histórica.
Entre 1844 e 1847, as bases da teoria social marxiana se constituem enquanto constituição de uma concepção de homem e de história. Estes são dois movimentos imbricados, mas que podem ser distinguidos do ponto de vista analítico. 
A concepção de homem (mais precisamente: de ser social), Marx a desenvolve no curso de sua crítica e superação do legado da filosofia clássica alemã (basicamente, Hegel e Feuerbach). O que alguns chamam de estrutura antropológica e outros, mais exatamente, de essência humana (cf. Heller, 1972; Markus, 1973 e 1974; Díaz, 1975) -  naturalmente que sem qualquer conotação supra-histórica - é um conjunto de possibilidades (consciência, linguagem, teleologia, universalidade, socialidade, liberdade) construídas ao longo do tempo por uma espécie natural que, nesta construção e sem romper com o seu necessário substrato natural, submete-o progressivamente às determinações destas possibilidades.  O homem é um ser natural que, progressivamente, subordina a sua naturalidade às qualificações específicas que aquelas possibilidades engendram. O homem é uma natureza auto-modificada - esta automodificação, que põe a reflexividade como componente da sua estrutura peculiar, instaura-o como gênero distinto na/da natureza. 
Na gênese desta automodificação, Marx situa o trabalho. Trata-se da objetivação fundante do homem enquanto homem: o ser social é um ser objetivo porquanto só existe e se mantém na medida em que se objetiva. No intercâmbio com a natureza (que se modifica, mas não se automodifica), a condição de existência do homem está hipotecada às transformações materiais que ele impõe àquela - transformações que não obedecem ao comando de códigos genéticos, mas aos fins que o sujeito humano concebe. O trabalho é a (auto)atividade que concretiza essas transformações. A objetivação do trabalho, primária para assegurar a sobrevivência do gênero, é também primária no conjunto das objetivações do homem - suas objetivações vão, no curso do desenvolvimento, tornando-se cada vez mais ricas, mais complexas e mais amplas que o trabalho que as estimula e sustenta (o conhecimento, a arte, etc.). Esta (auto)atividade que se efetiva numa incessante cadeia de objetivações, de que o trabalho é o modelo elementar, constitui propriamente o ser do homem: é ela a práxis, que põe a cultura e a possibilidade de sua apropriação por cada um dos indivíduos singulares representantes do gênero (a subjetividade). Compreende-se, pois, por que para Marx, o homem - a partir da (auto)atividade que se expressa privilegiadamente no processo de trabalho, mas que, crescentemente, o ultrapassa - é um ser prático e social.
Esta concepção de homem, ou de ser social, Marx a elabora, como assinalei, numa interlocução crítica com, especialmente, Hegel e Feuerbach (Frederico, 1995). Mas sua elaboração é concomitante com a inflexão dos interesses intelectuais de Marx, efetivada no mesmo período (1844/1847), que gira da reflexão centrada na Filosofia (recorde-se a sua Dissertação, de 1841 - cf. Marx, 1982)  para a descoberta da Economia Política. Esta inflexão abre para Marx a alternativa de concretizar historicamente o processo da sua reflexão: são os estudos iniciais de Economia Política que lhe permitem fundamentar a concepção de homem, que ele começa por elaborar na crítica à filosofia clássica alemã, sobre a base de uma análise dos processos de produção e reprodução da vida material da sociedade. 
Daí a construção de uma concepção de história: o ser social conceptualizado como ser da práxis adquire densidade e efetividade apenas quando inscrito na rede de relações tecidas na produção das condições materiais de sua existência, relações que ele cria ao produzir tais condições. A história não é transcendente ao ser social: é a resultante das suas objetivações, é o produto objetivo de sua (auto)atividade. Sua substancialidade consiste no acúmulo e desenvolvimento das modalidades de controle e otimização da produção da vida social (aquilo a que, mais refinadamente, o léxico maduro de Marx designará rigorosamente por desenvolvimento das forças produtivas); suas transformações e rupturas devem-se ao caráter sempre inovador da satisfação de necessidades pelo trabalho - estas necessidades, uma vez satisfeitas, dão lugar a novas necessidades . Nesta concepção de história, a categoria trabalho deixa de ter um estatuto puramente antropológico: passa a tê-lo ontológico-social.
 A concepção de homem e a concepção de história de Marx, pois, se conectam na sua ontologia social: não é por acaso que A ideologia alemã, onde a categoria trabalho aparece suportando a consciência (e a expressão desta na linguagem), apresente a proto-forma da análise marxiana da sucessão histórica dos modos de produção (cf. Marx e Engels, 1970: 20 e ss); igualmente, não é por acaso que, no curso da elaboração desta obra, a crítica a Feuerbach (cf. as Teses... e, ainda, Labica, 1990), na decorrência da desmistificação da filosofia concebida como contemplação, o critério da verdade filosófica seja deslizado para o terreno da história (quer seja, o da prática social).
São estes desenvolvimentos teóricos do pensamento marxiano que, no limite possibilitando uma análise nova e original da sociedade burguesa (que, como vimos, tomará a sua primeira expressão na Miséria da filosofia), sustentarão o discurso político de Marx. Em síntese: o nível político a que dei saliência nas páginas precedentes não é um fragmento isolável na reflexão de Marx; ao contrário, é parte integrante de um corpo de idéias sistemáticas sobre a história, a economia e a sociedade. O Marx "político" é uma abstração (assim como o Marx "economista",  etc.): o político, em Marx, é parte de uma totalidade teórico-prática. Se assim é, a relação reforma/revolução que se encontra no seu discurso deve ser vista no bojo daquela totalidade . 
Como assinalei, uma das primeiras aparições do termo revolução nos escritos de Marx comparece no ensaio, publicado em 1844, sobre a Filosofia do Direito de Hegel (Marx, 1971). Se, todavia, comparamos a carga semântica do termo, em 1844, com a que possui em 1847 (na Miséria... e no Manifesto...), constataremos não propriamente modificações, mas sobretudo uma profunda concretização histórica. Evidentemente, esta não se obteve na crítica ao reformismo; pelo contrário, a crítica ao reformismo é que se foi enriquecendo e ampliando em função dela. Aquele aprofundamento histórico e este enriquecimento - que não cessarão de se desenvolver e renovar (adiante, indicaremos este ponto) - deveram-se aos desenvolvimentos teóricos que mencionamos há poucas linhas.
Estes desenvolvimentos, no curso da década de quarenta, conduziram Marx à determinação da revolução como categoria histórica . Não se trata de um conceito (ou de uma noção) "política": trata-se, estritamente, de uma categoria ontológica que exprime um "modo de ser, uma forma de existência" do processo social, tomada concretamente na multiplicidade das suas determinações (sociais, culturais, econômicas, políticas, históricas); trata-se de uma modalidade específica de objetivação do ser social historicamente determinado pela ordem burguesa (com seus traços peculiares de classe, etc.). É isto o que distingue, aliás, Marx de todos os revolucionários da época (seja o velho Blanqui, seja o jovem Bakunin).
Marx compreende por revolução o complexo processo por que uma classe determinada (o proletariado) subverte a ordem burguesa no sentido de instaurar o comunismo (não um projeto ideal, mas a condensação de tendências já realmente operantes na realidade). O primeiro passo neste processo é a tomada do poder político (cujo eixo é o poder de Estado), a partir do qual  implementar-se-á um conjunto de medidas econômicas, todas fundadas na supressão da propriedade privada dos meios de produção, condição para a eliminação da exploração do trabalho. O novo poder político, assentando numa democracia de massas , será o ponto arquimédico para promover seja a socialização da economia, seja a socialização de si mesmo - visa, portanto, à sua auto-supressão, num longo decurso temporal e numa escala mundial, abrindo a via a uma nova idade histórica que ultrapassará a das sociedades divididas por classes e antagonismos, inaugurando uma socialidade cujas transformações perderão o caráter traumático de que se revestem necessariamente as mutações até então processadas na história.
A revolução que está na ordem-do-dia, para Marx, é a revolução socialista: trata-se da última revolução em sentido estrito, porque só há revolução quando uma classe social, apoderando-se do poder político, subverte os fundamentos de uma sociedade promovendo uma estrutural alteração no estatuto da propriedade. Ora, a revolução socialista, cujo sujeito é o proletariado, suprimindo as classes e o poder político enquanto tais, suprime os antagonismos sociais. Mas isto não significa o "fim da história": significa apenas o fim da pré-história, porquanto as contradições (que se distinguem dos antagonismos) continuarão operando e demandando soluções . 
O que a análise teórica de Marx lhe revelou é que a questão social é insolúvel nos limites da ordem burguesa. Porém, transcender a ordem burguesa supõe a transformação do proletariado em classe dominante (primeiro passo da revolução). Vê-se, pois, por que Marx recusa sistematicamente as propostas reformistas: nelas, a ausência da perspectiva de classe proletária determina o permanecer no interior dos limites da ordem burguesa e, conseqüentemente, a insolubilidade da questão social.    
A prova de história: 
revolução não é insurreição
Em 1847, a categoria revolução apresenta-se a Marx sob uma modalidade específica: a modalidade insurrecional. São várias as fontes que o documentam - mas nenhuma é tão límpida como o Manifesto..., onde se afirma que os objetivos dos comunistas "só  podem ser alcançados pela transformação violenta de toda a ordem social até hoje existente" (Marx e Engels, 1986: 123 [negritos meus - CS]).
Foi com esta "concepção explosiva" de revolução que Marx protagonizou os eventos de 1848-1849, e foi com ela que avaliou as pesadas derrotas do proletariado euro-ocidental naquela conjuntura. Os seus textos avaliativos - muito especialmente as mensagens redigidas na sequência da derrota, em nome do Comitê Central da Liga dos Comunistas (cf. a mensagem de março de 1850, in Fernandes, org., 1983: 220 e ss) - reiteram esta concepção, insistindo inclusive na idéia de uma "revolução permanente".
A "concepção explosiva" de revolução, que a identifica diretamente como confronto armado de classes, como guerra civil, Marx não a tem simplesmente como herança da tradição blanquista (como querem alguns analistas apressados), nem corresponde a uma visão estreita e empobrecedora da dinâmica social. Ao contrário, ela reflete as reais condições do enfrentamento de classes na primeira metade do século XIX, quando o Estado burguês era fundamentalmente um gendarme a serviço exclusivo da proteção do capital. À medida em que o Estado burguês se "amplia", respondendo às necessidades de expansão do capital (incluídas aí as da sua legitimação) e às pressões dos trabalhadores, ele acresce às suas funções coercitivas de classe (burguesa) funções coesivas, com o que passa a ter pertinência também para o conjunto das classes subalternas.
Esta "ampliação", que terá início exatamente a partir de 1848 (pense-se, por exemplo, na ulterior "legislação social" bismarckiana), evidentemente que incidirá enormemente nas formas de expressão das lutas de classes. Do mesmo modo que a burguesia não validará sua dominação apenas com a repressão, também o proletariado encontrará novos meios e modos de protagonismo social.
Na segunda metade do século XIX, cenário - em plano histórico-universal -  dessas modificações, a prova histórica mostrou o crescente anacronismo da forma insurrecional da revolução. Na Europa ocidental, sua última eclosão, na Comuna de Paris, foi, na certeira apreciação de Marx, uma tentativa falhada de assalto ao céu. Se Marx reduzisse a revolução à forma insurrecional, seguramente sua teoria da revolução não resistiria à prova histórica.
Entretanto, a análise marxiana - cuja estrutura básica já se encontra conclusa na segunda metade da década de quarenta - continuou acompanhando o evolver da dinâmica capitalista e foi dando conta do restritivo que havia naquela "concepção explosiva". Se já no Dezoito brumário... (Marx, 1969a) Marx começa a "ampliar" a sua concepção de Estado (sem deixar de mão, naturalmente, o seu conteúdo de classe), as descobertas de 1857-1858, documentadas nos manuscritos conhecidos pelo título geral de Gründrisse... (Marx, 1971 e ss), levam-no a ponderar a categoria de revolução numa abordagem macroscópica; é assim que, em 1859, a categoria aparece enlaçada a um tratamento global do processo social:
"[...] Na produção social da própria vida, os homens contraem relações determinadas, necessárias e independentes de sua vontade, relações de produção estas que correspondem a uma etapa determinada de desenvolvimento das suas forças produtivas materiais. A totalidade dessas relações de produção forma a estrutura econômica da sociedade, a base real sobre a qual se levanta uma superestrutura jurídica e política, e à qual correspondem formas sociais determinadas de consciência. O modo de produção da vida material condiciona o processo em geral de vida social, político e espiritual. Não é a consciência dos homens que determina o seu ser, mas, ao contrário, é o seu ser social que determina sua consciência. Em uma certa etapa de seu desenvolvimento, as forças produtivas materiais da sociedade entram em contradição com as relações de produção existentes ou, o que nada mais é do que a sua expressão jurídica, com as relações de propriedade dentro das quais aquelas até então se tinham movido. De formas de desenvolvimento das forças produtivas, essas relações se transformam em seus grilhões. Sobrevém então uma época de revolução social. Com a transformação da base econômica, toda a enorme superestrutura se transforma com maior ou menor rapidez" (Marx, 1982: 25).
E, na sequência, tematizando a revolução socialista:
"As relações burguesas de produção constituem a última forma antagônica do processo social de produção, antagônicas não em um sentido individual, mas de um antagonismo nascente das condições sociais de vida dos indivíduos; contudo, as forças produtivas que se encontram em desenvolvimento no seio da sociedade burguesa criam ao mesmo tempo as condições materiais para a solução desse antagonismo. Daí que, com essa formação social, se encerra a pré-história da sociedade humana" (id., p. 26).
Na década de sessenta, com o proletariado europeu recuperando-se das derrotas de 1848-1849, o pensamento marxiano foi sendo cada vez mais sensibilizado pelo processo real de acumulação de forças que, na perspectiva do avanço revolucionário, a classe operária poderia realizar ainda no marco da ordem burguesa e sem o recurso a formas insurrecionais. A documentação da Associação Internacional dos Trabalhadores, quanto a isto, não deixa quaisquer dúvidas - recorde-se, por exemplo, que Marx saúda a limitação da jornada de trabalho "como a primeira vitória da economia política do proletariado", do trabalho, sobre a economia política do capital.
É verdade que não coube a Marx um conjunto explícito de formulações que sinalizasse a possibilidade de uma concepção processual  (Coutinho, 1985) de revolução - reconhecidamente, é a Engels que se deve esta explicitação (na célebre e polêmica "Introdução" de 1895 às análises marxianas das lutas de classes francesas de 1848-1849; cf. Engels, in Marx-Engels, 1, 1961), contida na idéia de que os novos tempos só podem fazer prever "revoluções de maiorias", anacronizando as "barricadas". Entretanto, parece estabelecido que o próprio Marx caminhava neste sentido - e há indicações de que até mesmo aventou a possibilidade de o proletariado "comprar" a burguesia.
Todavia, e ao contrário do que parece evidenciar-se no grosso da documentação que cuida das relações entre reforma e revolução no pensamento de Marx, não é a forma do processo revolucionário (insurrecional ou não) que, para mim, define o corte que Marx vê entre ambas. Já salientei que o decisivo remete à questão da perspectiva de classe (proletária); no plano da proposta política, a mim o que se delineia como índice definidor da revolução, na visão de Marx, é a relação com a propriedade privada dos meios de produção.  
Menos que as formas concretas e particulares de efetivação da passagem do proletariado à classe dominante, o que particulariza, frente aos mais variados projetos reformistas, a proposta revolucionária (tal como Marx a concebe) é a supressão da propriedade privada dos meios de produção. Se a evolução do pensamento de Marx, de meados da década de quarenta aos seus últimos escritos, pode revelar (e efetivamente revela) giros e inflexões, uma invariante é nele constatável: desde 1844, o fulcro da ação instauradora de uma nova socialidade passa necessariamente pela abolição da propriedade privada dos meios de produção - já a partir dos Manuscritos de 1844 (que, como ressaltei, não comporta polêmicas com o reformismo), a supressão dessa instituição aparece como a condição sine qua non para o "fim da pré-história dos homens". E a leitura atenta de todas as propostas elaboradas por Marx como programática da revolução socialista mostra que a pedra-de-toque é a eliminação da propriedade privada dos meios de produção - numa seqüência que vai do Manifesto... (passando pelas "Reivindicações do partido comunista na Alemanha" - cf. Marx, 1987: 83 e ss) e culmina nas páginas finais d'O capital . 
De qualquer maneira, porém, duas constatações são inequívocas: uma, a de que a categoria marxiana de revolução é o bastante flexível, ainda que rigorosamente determinada, para compreender processos que extrapolam largamente as formas insurrecionais ; outra, a de que Marx, recusando de plano o reformismo, não deixou de avaliar como progressistas, para a classe operária, algumas reformas introduzidas na vida social (por exemplo, a legislação fabril inglesa). 
Todavia, Marx não só registrou a importância dessas reformas; foi tão adiante na crítica ao reformismo que, avaliando a maturidade da classe operária, julgou que ele se encontrava num processo de descrédito e de perda de ressonância - tal como se pode inferir da leitura do terceiro capítulo do Manifesto... (cf. Marx e Engels, 1986: 107 e ss). O que destacarei no próximo capítulo revela a intempestividade dessa apreciação. 
 
Capítulo 3
Reforma e revolução na
Segunda Internacional
 
A Internacional Socialista, mais conhecida como Segunda Internacional por suceder à Associação Internacional dos Trabalhadores , constituiu o cenário clássico do debate entre reforma e revolução - exatamente no seu interior deu-se a fratura entre reformistas e revolucionários proletários, num corte que se tornou potenciado após 1917 e que implicou em sérias conseqüências para o movimento operário de todo o mundo durante o breve século XX  (Hobsbawm).
Nela, o mencionado corte (contrapondo os revisionistas aos marxistas ortodoxos) ganhou uma nitidez e uma densidade tais que é possível afirmar que na problemática reforma/revolução residiu o essencial do seu protagonismo histórico. Mais ainda: nela se configuraram os conteúdos com que esses dois termos se transladaram ao quadro ídeo-político do nosso século. Donde a importância de um tratamento cuidadoso, ainda que sumário - dados os limites desta Tese -, da polêmica que a cindiu bem antes do seu colapso, em agosto de 1914.
A Segunda Internacional
e a obra marxiana
   A Segunda Internacional foi fundada em Paris, em 14 de julho de 1889 - escolheu-se a data pelo seu caráter simbólico: o primeiro centenário da grande Revolução -: 400 delegados de 23 países, expressando as mais variadas tendências do movimento operário, deram vida a um forum político internacional e internacionalista que matrizaria fortemente o futuro do movimento socialista , inclusive muito além do seu colapso institucional, em agosto de 1914 .
Um dos aspectos mais significativos da ação da Segunda Internacional reside no seu papel de difusora do pensamento de Marx no interior do movimento operário. Com efeito, foi a partir da máquina publicística montada pelo organismo - gerida especialmente pelo partido que constituiu o seu centro de gravitação, o Partido Social-Democrata Alemão  -, que o pensamento de Marx foi levado a grandes contingentes da classe operária em todo o mundo; não há nenhum exagero em afirmar-se que foi pela mediação da Segunda Internacional que o marxismo  se difundiu em larga escala como a referência teórica e política do movimento socialista do proletariado.
Esta difusão, porém, no que tange ao domínio teórico, foi extremamente problemática. Em primeiro lugar, porque boa parte da obra marxiana permaneceu inédita durante todo o período de existência da organização (ainda que a dois de seus membros mais proeminentes, Kautsky e Bernstein, coubesse a condição de testamenteiros literários de Marx e Engels) . Textos como os Manuscritos de 1844, A ideologia alemã e os Gründrisse - cuja importância para fundamentar a proposição política revolucionária marxiana já destaquei (cf. infra, Capítulo 2, item "A categoria revolução") - foram ignorados pelos teóricos e militantes da Segunda Internacional.
Em segundo lugar, os principais dirigentes (intelectuais e políticos) da Segunda Internacional tiveram a sua formação básica efetivada no clima cultural pós-1848, exatamente aquele em que Hegel e a dialética - referências fundamentais para o universo teórico e metodológico de Marx - eram tratados como cachorros mortos (cf. Marx, "Posfácio da segunda edição" [1873] d'O capital) .
De fato, para além d'O capital (lido especialmente no seu volume I ou nos resumos francês, de Deville, e italiano, de Cafiero) e do Manifesto..., a vinculação da Segunda Internacional com o legado teórico de Marx fez-se mormente através do ensaio de Engels contra Dühring (Engels, 1972), expressamente considerado uma introdução ao estudo do socialismo.
Esta fragilização dos suportes teóricos sobre os quais assentava a difusão do pensamento marxiano contribuiu decisivamente para que o marxismo da Segunda Internacional fosse bastante contaminado pelo cientificismo e pelo positivismo que dominavam a cultura européia da época. Não é casual que muitos dirigentes intelectuais do organismo buscassem uma fundamentação filosófica para o socialismo em Kant , como também não foi casual a identificação da teoria social de Marx com uma concepção de mundo à moda dos antigos sistemas filosóficos conclusos e cerrados (Fetscher, 1970).
Tais limitações teóricas seguramente incidiram sobre as concepções políticas peculiares ao marxismo da Segunda Internacional, ainda que suas incidências só emergissem claramente quando da crise de 1914. Está mais ou menos estabelecido na bibliografia crítica sobre a Segunda Internacional que os fenômenos que cercaram a adesão de expressivos setores seus ao "social-patriotismo" - fenômenos como o gradualismo, o evolucionismo, mas também aspectos conectados a uma concepção fatalista da passagem ao socialismo por mera indução do desenvolvimento capitalista - deitam raízes na sua deficiente (e/ou equívoca) vinculação com o pensamento marxiano: o juízo lukacsiano acerca do marxismo vulgar (Lukács, 1974, especialmente os dois primeiros ensaios) segregado pelas concepções dominantes na Segunda Internacional é atualmente caucionado por analistas da mais diversa extração (Fetscher, 1970; Löwy, 1975; e ainda os ensaios de Waldenberg e Salvadori, in Hobsbawm, org., II, 1982).
Assim, compreende-se que, ao mesmo tempo em que realizava a difusão do pensamento de Marx, a Segunda Internacional - dada a natureza de sua relação com este pensamento - o fazia de modo restritivo e empobrecedor. Lênin, aliás, percebeu argutamente esta ambivalência: fazendo notar que, com a Segunda Internacional, "a doutrina de Marx alcança uma vitória completa e se difunde em extensão", observa simultaneamente "um temporário rebaixamento do nível revolucionário" (apud  Andreucci, in Hobsbawm, org., II, 1982: 18).
A Segunda Internacional, a formação
dos partidos social-democratas e o papel
do partido alemão
Mas a importância real da Segunda Internacional só se afere realmente se se considerar que as suas concepções teóricas e políticas, fundamentalmente elaboradas no interior do Partido Social-Democrata Alemão (fundado em 1875, no Congresso de Gotha, numa fusão de grupos cuja unidade programática foi severamente criticada por Marx) , ganharam a hegemonia no campo socialista proletário na exata medida em que ela foi o centro organizador e modelar a partir do qual se estruturaram em larga escala os partidos social-democratas.
 Realmente, colaram-se à orientação da Segunda Internacional o Partido Operário Belga (fundado em 1885), o Partido Social-Democrata Austríaco e o Suíço (criados em 1888), o Partido Socialista Revolucionário francês (criado por Vaillant em 1881 ), a Federação Social-Democrata inglesa dirigida por Hyndmann (organizada em 1884), o Partido Socialista Búlgaro (fundado em 1891), o Partido Social-Democrata Operário da Romênia (estruturado em 1893), o Partido Social-Democrata Operário Russo (fundado em 1897)  - ademais de grupos escandinavos, italianos, ibéricos e norte-americanos. 
A influência ideológica e organizativa da Segunda Internacional sobre esses instrumentos partidários não se operou exclusivamente através de suas publicações e seus congressos  - processou-se, ainda, mediante órgãos específicos, dirigidos a segmentos e categorias sociais determinados, como os sindicalistas, os parlamentares, os jovens e as mulheres . 
Neste sentido, a Segunda Internacional esteve na raiz da formação dos partidos social-democratas e do movimento social (sindical, feminino e juvenil) a eles afetos - formação entendida não enquanto elemento da sua fundação, mas enquanto organizadora das suas estruturas, concepções e práticas. Se, como indiquei anteriormente (cf. Capítulo 2, item "A expressão teórica..."), é com Marx que nasce a expressão teórico-revolucionária do proletariado como sujeito político autônomo, é com a formação empreendida pela Segunda Internacional que nasce um movimento de massas (partidário e sindical) que incorpora aquela expressão.
Este movimento de massas, compreensivelmente, inscreve-se num quadro mais amplo, o do
"começo de uma nova fase na história do movimento operário internacional. Nesta fase, as fronteiras do socialismo se viram alteradas: à Europa ocidental e central se somam, nos últimos decênios dos século XIX, a norte, os países escandinavos; a leste e sudeste, a Rússia e os países balcânicos; a sul, a Península Ibérica e sobretudo a Itália. Mais: aparecem já, esporadicamente, focos de socialismo em outros continentes, especialmente nos Estados Unidos" (Kriegel, 1986: 37).
Perquirindo as condições desta fase, um competente analista pôs de manifesto razões pertinentes para a emergência, nela, dos partidos social-democratas:   
"Diversos foram, na Europa, os tempos da industrialização; diversos os ritmos e as características em que ela se verificou em cada país. Apesar dessas diferenças, contudo, o processo de formação dos partidos social-democráticos se concentrou substancialmente nos aproximadamente quinze anos que vieram da metade dos anos 70 ao final  dos anos 80. As motivações objetivas do processo foram, certamente, gerais, na medida em que ele se realizou em meio a uma profunda depressão econômica que golpeou entre 1873 e 1896 toda a economia mundial: as formas anteriores de existência do movimento operário, associações culturais, sociedades de socorro mútuo, corporações sindicais e toda uma riquíssima variedade de núcleos associativos que reunia os trabalhadores das novas indústrias junto com os trabalhadores das velhas manufaturas foram impelidas em direção as formas de unificação, seja pela formação de estados nacionais, seja pelo desenvolvimento industrial, seja, finalmente, pela piora geral das condições de vida e de trabalho em toda a Europa" (Andreucci, in Hobsbawm, org., II, 1982: 26).
Este quadro relaciona-se, como se sabe, ao trânsito do capitalismo a um novo patamar do seu desenvolvimento - o estágio do monopólio, cujos traços constitutivos mais salientes foram apreendidos e assim resumidos por Lênin, num estudo clássico (Imperialismo, estágio superior do capitalismo):
"1) A concentração da produção e capital levada a um grau tão elevado de desenvolvimento que criou os monopólios, os quais desempenham um papel decisivo na vida econômica; 2) a fusão do capital bancário com o capital industrial e a criação, baseada nesse 'capital financeiro', da oligarquia financeira; 3) a exportação de capitais, diferentemente da exportação de mercadorias, adquire uma importância particularmente grande; 4) a formação de associações internacionais monopolistas de capitalistas, que partilham o mundo entre si, e 5) o termo da partilha territorial do mundo entre as potências capitalistas mais importantes" (Lênin, I, 1982: 641-642). 
As transformações societárias desatadas pelo ingresso do capitalismo na etapa imperialista são inclusivas e profundas (cf. Netto, 1992, cap. 1). E elas rebatem peculiarmente na Alemanha, em função do seu tardio processo de unificação e do modelo político singular que o conduziu (processo e modelo analisados sob a designação de via prussiana ), tornando a pátria de Hegel, Goethe e Marx o espaço privilegiado, no último quartel do século XIX, seja para o protagonismo acentuado do proletariado, seja para os ensaios do reacionarismo que, no século XX, abririam a via para a barbárie fascista.
Este rebatimento peculiar, que acabou por colocar a Alemanha no centro do redemoinho revolucionário nas primeiras décadas do século XX, teve por base um rápido, embora tardio, desenvolvimento do capitalismo, que se pode verificar com as seguintes indicações:
"[...] O número de trabalhadores industriais aumenta em proporções consideráveis: na Alemanha, entre 1882 e 1895, a  mão  de   obra   industrial       passa    de 7. 300. 000  a 
10. 	200. 000 (aumento de 40%). [...] Os operários se concentram nas grandes empresas: na Alemanha, neste período, o pessoal empregado nas fábricas de mais   de 1. 000   operários   passa    de 213. 000 a 448. 000" (Kriegel, 1986: 37).
É sobre este mundo proletário que se realiza a experiência do Partido Social-Democrata e, à base dela, a irradiação do marxismo da Segunda Internacional para o conjunto do movimento socialista organizado. O partido de Kautsky, Bernstein, Bebel, Liebknecht e Rosa Luxemburgo é mais que um espelho em que se miram os social-democratas de todo o mundo: modelador dos partidos (suas concepções e práticas) social-democratas de todo o mundo, ele é um verdadeiro laboratório no qual se condensam e se desenvolvem tendências que, de um modo ou de outro, percorreriam também os outros partidos. Por isto mesmo, o grande debate teórico e político que marcará o Partido Social-Democrata alemão não expressará somente as suas particularidades: indicará, nas suas linhas fundamentais, um processo de discussão (e de divisão) internacional. De fato, este debate - o debate sobre reforma e revolução - cortou o conjunto mundial do movimento socialista .
O debate: reforma ou revolução?
O debate que haveria de marcar uma fratura inicialmente ideológica, e posteriormente política e organizativa, do movimento socialista de base proletária foi aberto por uma série de artigos de E. Bernstein, publicados no principal órgão teórico do Partido Social-Democrata alemão (Die Neue Zeit), entre 1896 e 1898, e reunidos, em 1899, num volume célebre, As premissas do socialismo e as tarefas da social-democracia (Bernstein, 1975 ). 
Os textos de Bernstein - que, na verdade, codificavam  tendências sócio-políticas que já vinham se expressando no movimento socialista desde meados dos anos oitenta, configurando o que logo em seguida seria conhecido como revisionismo  - causaram um enorme impacto no partido alemão e no conjunto do movimento socialista.
Bernstein, quando de seu exílio na Inglaterra, entre 1888 e 1901, revisou a teoria marxista, tal como a pensava a social-democracia, tendo por objetivo "restabelecer a unidade entre teoria e práxis". Partindo da premissa de que a teoria marxista se compunha de um materialismo histórico, de uma teoria da luta de classes, de uma teoria da mais-valia, de uma teoria do modo de produção capitalista e de uma teoria das tendências do desenvolvimento da sociedade capitalista, Bernstein não só fragmentou a teoria social de Marx, como procurou retirar do marxismo a dialética . Para tanto, Bernstein recuperou da filosofia neokantiana os pressupostos de que
"...as idéias e os imperativos éticos possuem uma realidade numenal e intervêm também no curso da história. Em vez, portanto de as expulsar, o socialismo deve integrá-las e não fazer da luta de classes e das transformações econômicas o único motor da história" (Touchard, org., VII,  1976:32).
 	De F.A. Lange, cujos escritos eram bastante representativos  na social-democracia de então, Bernstein incorporou a seguinte tese:
"...Se puede pensar, por lo tanto con buenos motivos, que, del mismo modo la Reforma en tanto que revolución social contribuyó a destruir las viejas formas de la propiedad y de la ganancia y crear las condiciones de existencia del modo de producción capitalista, una nueva revolución social podría servir para - sin abolir por princípio y en general la propiedad privada - introducir principios jurídicos y ordenaciones estatales en base a los cuales la propiedad social y la propiedad privada pudiesen entrar en libre competencia al igual que podría dar comienzo la lucha, de duración presumiblemente secular, que acabaría finalmente con la administración de la propiedad social en conexión con el trabajo social" (Lange apud Gustafsson, 1975: 140).      
   
	Considerando  a independência dos fatores ideológicos e éticos de uma teoria da história, Bernstein remeteu a concepção marxiana do valor-trabalho a uma mera construção conceitual, o que se configurou no ponto fulcral do seu revisionismo. Entendendo que são as necessidades globais da sociedade que determinam o tempo socialmente necessário para a produção de mercadorias, Bernstein acreditava que faltava uma medida das necessidades globais respectivas e, assim também, o valor, entendido como precedente, resulta ser um fato puramente conceitual.	 											    		
    Da concepção do valor-trabalho como produto conceitual, Bernstein extrai a conseqüência de que a mais-valia perde a sua base material, e passa a ser também apenas uma fórmula conceitual e hipótese científica. O que Bernstein afirma, portanto, é que a teoria do valor-trabalho e a teoria da mais-valia marxianas, embora se baseiem em relações reais existentes, são construídas a partir de abstrações, não se constituindo, portanto, como fundamento e explicação do mais-trabalho e, consequentemente, da exploração. E mais, Bernstein faz uma equivalência, e, equivalência negativa enquanto validade teórica, entre a teoria do valor de Marx e a teoria da utilidade marginal. Segundo Gustafsson, essa tentativa de equivalência constitui-se numa característica de todo pensamento revisionista contemporâneo a Bernstein.
Partindo da premissa de que a teoria do valor era insuficiente para explicar a mais-valia e "medir" o grau de exploração, Bernstein busca suprir esta lacuna e demonstrar a existência do mais-trabalho com a seguinte argumentação:
"Del trabajo global contenido en la producción vive, así, un numero de personas sensiblemente superior a los que son activos en ella y las estadísticas de los ingresos nos muestran que las capas no activas con respecto a la producción, además, se apropian de una proporción del producto total mucho mayor de lo que resulta de su relación numérica a la parte activa y productiva de la población. El plus-trabajo de esta última es un hecho empírico, demonstrable a partir de la experiencia, que no precisa ninguna prueba deductiva" (Bernstein apud Gustafsson, 1975: 146). 
	O que Bernstein não apreendeu é que, na sua argumentação, o que era tomado como "dado" era aquilo que, precisamente, devia ser demonstrado, e que nem a empiria nem as condições naturais explicam a realidade do mais-trabalho e do mais-produto, pois segundo Marx:
"A excelência das condições naturais fornece sempre apenas a possibilidade jamais a realidade do mais-trabalho, portanto, da mais-valia ou do mais-produto. As diferentes condições naturais do trabalho fazem com que a mesma quantidade de trabalho em países diferentes satisfaça as diferentes massas de necessidades, de modo que sob circunstâncias em tudo mais análogas, o tempo de trabalho é diferente. Sobre o mais- trabalho elas atuam somente como barreira natural, isto é, mediante a atuação do ponto em que pode começar o trabalho para outros. [...] A graça da natureza não explica porque ele agora trabalha 6 dias por semana ou porque ele fornece 5 dias de mais-trabalho. Ela explica apenas porque seu tempo de trabalho necessário é limitado a 1 dia por semana. Em nenhum caso porém seu mais produto se origina de uma qualidade oculta, inata do trabalho humano" (Marx, 1985: 109-110). 
Para Bernstein, o fato  do trabalho assalariado não possibilitar a apropriação total do produto de seu trabalho não permite extrair uma justificativa científica do socialismo e do comunismo; tampouco a teoria da exploração e da mais-valia justificam a pauperização da classe trabalhadora. Bernstein reconheceu como correta a tese marxiana segundo a qual o capitalismo tenderia a uma maior concentração de capitais, uma maior centralização das fábricas e um crescimento da taxa de exploração. Marx, porém, segundo Bernstein, ao analisar a sociedade capitalista, subestimara as forças que se contrapõem a essa tendência, sobretudo as sociedades anônimas por ações, através das quais a propriedade não apenas se descentralizava, estando convencido de que a distribuição de renda e da riqueza social estavam se igualando. Assim, para Bernstein, o rápido crescimento da produção determina ou
	"[...] uma crescente diminuição relativa do número dos capitalistas e um bem estar crescente do proletariado, ou existe uma numerosa classe média" (Bernstein, ined.: 130). 
	  O desenvolvimento do capitalismo moderno não resultaria nem na miséria do proletariado, nem, tampouco, na proletarização da classe média, mas, ao contrário, no crescimento do bem estar destas classes. A esse respeito, as análises de Gustafsson apontam para o fato de que o que Bernstein não se colocava era a questão elementar de se as sociedades anônimas não constituíam uma nova forma de organização empresarial capitalista. 
Ao discutir especificamente a derrubada da sociedade  capitalista e a possibilidade do socialismo, Bernstein introduz no debate da social-democracia a alternativa desenvolvida pela Sociedade Fabiana: a cooperação. Assim, é através das sociedades por ações, que neste período estavam em franco desenvolvimento, substituindo as antigas formas empresariais, que Bernstein via a possibilidade de distribuição da riqueza social, acreditando que o socialismo depende fundamentalmente do aumento da riqueza social. A edificação da democracia é a via a ser percorrida para o socialismo, conforme pode-se observar na seguinte passagem:
"A democracia é, ao mesmo tempo, um meio e um fim. É o meio para a luta em prol do socialismo. O certo é que não se pode esperar milagres. Em um país como a Suíça, onde o proletariado industrial representa a minoria da população [...], não se pode entregar a esse proletariado o poder político. Tampouco, em um país como a Inglaterra, onde o proletariado representa claramente a classe mais numerosa da população, pode-se transformar tal  proletariado em patrão da indústria, se ele mesmo  não tem nenhum desejo de chegar a sê-lo e não se sente ou não se sente ainda maduro para desempenhar as tarefas que isso implica. Apesar disso, na Inglaterra, na Suíça, na França e nos Estados Unidos, nos países escandinavos, etc., o  progresso social converteu-se em uma poderosa alavanca" (Bernstein, ined.:225-226).
Segundo Bernstein, é no terreno da democracia que as cooperativas de consumo e de produção encontram solo fértil para gradualmente resolver os antagonismos de classe. Ao negar as contradições objetivas internas do capitalismo como determinantes de sua superação, e a revolução como via para o socialismo, Bernstein busca outros fundamentos e os encontra na moral, na ética e na justiça social, marcando, assim, sua ruptura com a perspectiva revolucionária marxiana. O ponto de partida para essa ruptura é a negação da dialética, por não ter compreendido que "no pensamento de Marx a dialética é ao mesmo tempo um método e marcha para a revolução" (Touchard, org., VII, 1976: 34).
Para Bernstein, no campo sócio-econômico há dois grandes instrumentos: a cooperativa de consumo que, ao baratear o preço da mercadoria, ampliava ao mesmo tempo a possibilidade de consumo e o número de produtores. O segundo era o sindicato, atuando como instrumento do proletariado na gestão das empresas. A compreensão e o significado desses instrumentos têm a ver com a sua concepção de democracia que,
" em termos negativos [traduz-se por] 'ausência de domínio de classe', indicando com isso um ordenamento social em que nenhuma classe goza de privilégios frente à comunidade.[...] A definição negativa tem, ademais, a vantagem de deixar menos espaço que a expressão 'governo do povo' à idéia de opressão do indivíduo por parte da maioria, idéia que repugna absolutamente à consciência moderna. [...] Democracia não é o mesmo que ilegalidade. A democracia não pode distinguir-se dos demais sistemas políticos por carecer de qualquer lei, mas por carecer de leis que estabeleçam ou ratifiquem privilégios baseados na propriedade, na estratificação social e na confissão religiosa; não se distingue pela falta total de leis que limitem os direitos de alguém, mas pela abolição de todas as leis que limitam a igualdade jurídica universal ou o direito igual para todos" (Bernstein, ined.: 223-224). 
As conseqüências deste entendimento de democracia implicam em que, primeiramente, a democracia não era o "poder do povo", uma vez que esta definição é superficial, formalista, acarretando, ao mesmo tempo, uma possibilidade de agressão ao indivíduo por uma maioria autoritária e uma violência à "consciência moderna", cujo fundamento básico é o respeito à liberdade individual. Em segundo lugar, a democracia não implica a supressão das classes, mas sim "é, ao mesmo tempo, um meio e um fim. É o meio para a luta em prol do socialismo e é a forma de realização do socialismo" (Bernstein, ined..: 225).
Nesta perspectiva, o procedimento político burguês não era apenas racional, mas ético, donde cabia à social-democracia adotar uma criteriosa posição face ao liberalismo: a social-democracia não era apenas a sucessora histórica do liberalismo, mas sua própria essência espiritual e humanitária: 
"[...] No que se refere ao liberalismo como movimento histórico-universal, o socialismo é seu herdeiro legítimo não apenas do ponto de vista cronológico, mas também do ponto de vista do conteúdo social. [...] Na realidade, não existe uma idéia liberal que não pertença também ao conteúdo ideal do socialismo" (Bernstein, ined.: 231-233).
    
O postulado liberal de que a liberdade econômica é um direito inalienável do indivíduo, que não deve encontrar nenhum freio às suas atividades e empreendimentos jamais poderia ser  adaptada às concepções socialistas. São visões antagônicas desde seus cernes. A tarefa de concatená-las dentro de um conjunto conseqüente de formulações teóricas seria irrealizável; um claro momento de desrazão. Bernstein acreditava que, não obstante o inegável progresso da classe operária, do ponto de vista intelectual, político e racional, em relação aos dias da prática teórica e política de Marx e Engels, o proletariado era ainda incompetente para assumir o poder político, e, conseqüentemente, a direção da sociedade. 
Na verdade, o conjunto das teses de Bernstein apontava para um eixo central: a social-democracia (ou seja, o Partido Social-Democrata) deve concentrar-se nas lutas imediatas, por melhorias nos marcos da ordem burguesa; a saturação que estas melhorias - econômicas, sociais e políticas - promoveria no interior desta ordem acabaria por convertê-la numa estrutura socialista, sem traumatismos de qualquer espécie e sem qualquer violência legal. A proposta socialista deixava de ser revolucionária para tornar-se evolucionária. A única luta realista e concebível era a luta por reformas - e Bernstein colocava a questão de um modo inequívoco, ao concluir sua argumentação assinalando que, para a social-democracia, os fins socialistas eram descartáveis na medida em que o movimento reformista já os embutia.
Ao mote de Bernstein - "O movimento é tudo, o objetivo final é nada" -, que resumia a sua proposta acerca das tarefas da social-democracia, respondeu todo um variado espectro de líderes e intelectuais; de fato, Bernstein trouxera à luz uma problemática que afetava o conjunto do movimento socialista. A polêmica que desencadeou provocou a reação do "centro", representado por Kautsky, e da "esquerda", representada por Rosa Luxemburg, que replicou com o mote "O objetivo final é tudo, o movimento é nada" .
Rosa Luxemburg, no mesmo ano em que se publicou As premissas do socialismo..., retrucou com Reforma social ou revolução?, texto que Badia, seu grande biógrafo, considera "que talvez ainda hoje seja a melhor contestação marxista ao reformismo" (in Bottomore, ed., 1988: 224).
Em posição diametralmente oposta às idéias de Bernstein, Rosa Luxemburg acreditava na capacidade de organização do proletariado, de sua conscientização através da luta política diária, que desaguaria num processo revolucionário insurrecional.
Rosa argumentava que a anarquia do sistema de produção capitalista o levaria a um impasse. A crescente socialização do processo de produção, inerente à ordem burguesa, era, ela mesma, uma das premissas fundamentais do socialismo: o capitalismo, ao se desenvolver, gerava sua própria antítese.
Para Bernstein, os "fatores de adaptação" do capitalismo haviam tornado a insurreição inviável - e, entre tais "fatores", ele apontava o sistema de crédito, a democratização do capital, a expansão da classe média e o sufrágio universal, pelo qual a social-democracia alemã poderia chegar a um controle do parlamento, transformando o Estado burguês em Estado proletário. As cooperativas de consumo, geridas por trabalhadores, poderiam acabar com o lucro comercial ; os sindicatos, através de lutas, poderiam assumir o controle técnico das empresas. O desenvolvimento dos sistemas de comunicações estava propiciando maior rapidez nas trocas de informações entre os capitalistas, que agora dispunham de um mecanismo mais eficiente de controle do movimento dos capitais na busca do lucro.
Esses "fatores de adaptação", como os chamara Bernstein, foram ferozmente combatidos por Rosa Luxemburg como uma grosseira redução do socialismo a um ideal, a um "conhecimento puro". Dizia ela:	
"A teoria revisionista é obrigada a uma alternativa: ou a transformação socialista da sociedade é conseqüência, como anteriormente, das contradições internas do sistema capitalista e, então, a evolução do sistema inclui também o acerbamento das suas contradições, acabando necessariamente um dia ou outro na derrocada sob uma ou outra forma e, nesse caso, os `fatores de adaptação' são ineficazes e a teoria da catástrofe é justa. Ou os `fatores de adaptação' são capazes de evitar realmente o desmoronamento do sistema capitalista e assegurar a sua sobrevivência, portanto, anular essas contradições e, nesse caso, o socialismo deixa de ser uma necessidade histórica e, a partir daí, é tudo o que se queira, exceto o resultado do desenvolvimento material da sociedade" (Luxemburg, 1986: 31).
Quanto à questão do sistema de crédito, Rosa deixa claro que ele não resulta na atenuação dos antagonismos do capitalismo; pelo contrário, é um elemento desencadeador de crises. O sistema de crédito, ao facilitar o acesso ao capital de investimento, contribui com a expansão da produção. Esta, por sua vez, raramente é acompanhada na mesma proporção pela capacidade de consumo, pois os salários são controlados por mecanismos implícitos ou explícitos. Isso gera a superprodução, que destrói as forças produtivas, para as quais o sistema de crédito fora originalmente criado como promotor de seu desenvolvimento. Diz Rosa:
"A função específica do crédito consiste - exposta muito esquematicamente - em corrigir tudo o que o sistema capitalista pode ter de rigidez, introduzindo-lhe a elasticidade possível, em tornar todas as forças capitalistas extensíveis, relativas e sensíveis. Só consegue, evidentemente, e por isso mesmo, facilitar e agudizar as crises que se definem como o choque periódico entre as forças contraditórias da economia capitalista. [...] Agrava a contradição entre a produção e a troca, favorecendo no máximo a tendência expansionista da produção, paralisando a troca na primeira ocasião. [...] Agrava a contradição entre o caráter social da produção e o caráter privado da propriedade capitalista, tornando necessária a intervenção do Estado na produção" (Luxemburg, 1986: 35).
	Bernstein acreditava que o capital estava fadado a se democratizar através da proliferação das sociedades por ações, o que aumentaria consideravelmente o número de acionistas, ou seja,  tornaria proprietários uma enorme parcela da população, a partir de pequenos investimentos. Rosa desmitificava esse ponto de vista: apesar de se poder criar, teoricamente, um grande número de proprietários de ações, o capital inevitavelmente concentrar-se-ia cada vez mais em poder de um reduzido número de empresas, que com o controle majoritário das ações, exerceriam total poder sobre os investimentos de milhares de pequenos poupadores.
Na ótica de Bernstein, os trabalhadores, através da luta sindical e da luta pelas reformas, poderiam estender seu controle social e político e, por meios legislativos, reduzir o capitalista a mero administrador. Rosa rebatia essas assertivas direcionando o debate ao cerne da questão: as conjunturas do mercado estavam ligadas intrinsecamente ao nível da produção, que determinava a oferta e a procura da mão-de-obra. A economia em fase de expansão oferecia mais empregos e talvez melhores salários, enquanto que os períodos de crise geravam rebaixamento dos salários e desemprego. Esses fenômenos independiam do poder de negociação dos sindicatos. Os eventuais ganhos dos trabalhadores poderiam ser expropriados pelo capitalista, através de mecanismos mais sofisticados e sutis. Reformas legislativas não poderiam pôr um fim às condições de exploração.
O controle pelos trabalhadores dos rumos da produção capitalista, tanto no aspecto quantitativo, quanto na evolução tecnológica, apregoado por Bernstein, também carregava contradições: adotariam os trabalhadores novas tecnologias que dispensassem mão-de-obra ou a barateassem, em benefício do lucro? Alinhar-se-iam aos empresários para concorrerem com outras empresas do mesmo ramo de atividades, com o fim de alijá-las do mercado, e, conseqüentemente, gerar desemprego? Concordariam com aumentos de preços, prejudicando os consumidores, majoritariamente trabalhadores? Para Rosa, essa solidariedade entre trabalho e capital seria irrealizável porque antagônica e, sob o ponto de vista social, desastrosa.
A "transformação do Estado em sociedade", preconizada pelos revisionistas, foi outra questão rebatida por Rosa. Essa concepção coloca em segundo plano um ponto basilar da teoria marxista: o caráter classista do Estado. O desenvolvimento do Estado burguês propiciou um alargamento de suas atividades que, por vezes, vinham ao encontro ao interesse da sociedade como um todo. Rosa aponta, porém, que isso apenas ocorreu em circunstâncias tais que o interesse geral coincidisse com os interesses da classe dominante: a legislação trabalhista, por exemplo, ou as leis de seguridade social.
O caráter de classe do Estado foi reafirmado por outro fenômeno, que adquiriu considerável importância passagem ao século XX: o militarismo. O nível de investimento interno elevou-se dramaticamente, beneficiando o capital industrial e o capital financeiro, ao mesmo tempo em que serviu para monitorar os movimentos da classe operária, passando a ser adotado também como instrumento de intimidação. A expansão do militarismo alcançou tal magnitude que Rosa o considerava a força motriz do desenvolvimento capitalista naquele período.
	Rosa demonstra que, quando o desenvolvimento social se choca com os interesses dos capitalistas, o Estado		
"... opõe-se ao desenvolvimento social. Deixa, dessa maneira, de ser representante do todo da sociedade e se transforma simultânea e progressivamente num puro Estado de classe" (Luxemburg, 1986: 58).
	Para Rosa, reforma e revolução têm uma relação dialética tal como "o pólo Norte e o pólo Sul, a burguesia e o proletariado" (Luxemburg, 1986: 100). E continua:
"É inexato e contrário à verdade histórica apresentar-se o trabalho de reforma como uma revolução diluída no tempo, e a revolução como uma reforma condensada. Uma revolução social e uma reforma legal não são elementos que se distingam pela sua duração, mas pelo seu conteúdo; todo o segredo das revoluções históricas, da conquista do poder político, reside precisamente na passagem de simples modificações quantitativas, numa nova qualidade ou, concretizando, na passagem de uma dada forma de sociedade a outra num período histórico" (Luxemburg, 1986: 101).
A reforma não contemplaria a ultrapassagem dos limites da legalidade da ordem burguesa. Seria um movimento que, no seu limite, sob circunstâncias bastante favoráveis, atenuaria as contradições, tornando o capitalismo menos excludente, menos desigual. Aí residia o âmago das idéias dos revisionistas.
Quanto ao temor de Bernstein de que o proletariado conquistasse o poder "excessivamente cedo", Rosa sustentava que
"... não existe nenhum momento em que o proletariado, levado pelas circunstâncias ao poder, não possa, ou não esteja preparado para tomar certas medidas de transição para o socialismo. Afirmar que o programa socialista se pode revelar impotente numa fase qualquer da conquista do poder e incapaz de dar as diretrizes para a sua realização, é repetir a afirmação de que o programa socialista é, de um modo geral e sempre, irrealizável" (Luxemburg, 1986: 107).
	Rosa rechaçava, porém, as propostas ao estilo de Blanqui: um golpe levado a cabo por uma vanguarda aguerrida e fechada, sob um comando centralizado, em um momento qualquer. A revolução, na ótica de Rosa, teria como premissa um determinado grau de maturidade da sociedade capitalista, tanto política quanto econômica. O poder seria conquistado por um proletariado consciente, ao fim de um longo período de lutas vinculadas fatalmente a um processo de vitórias e derrotas episódicas, de avanços e recuos. Quanto à questão da prematuridade da conquista do poder, Rosa apostava em sua inevitabilidade
"porque esses ataques prematuros do proletariado são um fator, fator muito importante, da criação de condições políticas para a vitória definitiva; na realidade, é durante a crise política que acompanha a conquista do poder, durante longas e obstinadas lutas, que o proletariado adquirirá o grau de maturidade política que lhe permita obter a vitória definitiva da revolução. Assim esses assaltos `prematuros' do proletariado ao poder do Estado são, em si mesmos, fatores históricos importantes, que contribuem para provocar e determinar o momento da vitória definitiva. Nessa perspectiva, a idéia de uma conquista `prematura' do poder político pelos trabalhadores é um contra-senso que deriva de uma concepção mecânica da evolução da sociedade; uma tal concepção pressupõe para a vitória da luta de classes um momento fixo fora e independentemente da luta de classes" (Luxemburg, 1986: 108).
	Trótski sintetizou, e Rosa certamente concordaria com esta síntese, as idéias do reformismo social-democrata:
"Um partido reformista julga praticamente inabaláveis as bases do regime que ele se dispõe a reformar. Por esse lado, inevitavelmente, fica subordinado às idéias e à moral da classe dirigente. Ao estruturar-se sobre a espinha dorsal do proletariado, a social-democracia tornou-se em nada mais do que um partido burguês de segunda qualidade" (Trótski, 3, 1967: 841).
	E ainda,
"Em outras palavras, a social-democracia está pronta a sancionar, com atraso é verdade, os golpes de Estado que fazem o poder passar para a burguesia, condenando, com intransigência, aqueles métodos que, somente eles, podem transmitir o poder ao proletariado. Sob falsa objetividade, esconde-se uma política de defesa da sociedade capitalista" (id., ibid., p. 844).
As palavras de Trótski explicitam o cerne do debate: de um lado, a "falsa objetividade" do reformismo - agora conectado diretamente ao intento bernsteiniano de revisar a proposta marxiana, donde a identificação reformismo/revisionismo -, impugnando a vocação do proletariado para a ação revolucionária; de outro, a revolução como única alternativa para a superação da ordem do capital. De fato, alternativas excludentes: reforma ou revolução.
Mas a recorrência a Trótski significa mais: significa que o debate transcendia a social-democracia alemã - era um debate internacional. Prova-o, sem mais, a polêmica em torno da revolução russa de 1905/1907, que Lênin chamou de "ensaio geral" para o Outubro vermelho.
 
A polêmica russa sobre a
revolução de 1905-1907
A Rússia, que no século XX seria um espaço político fundamental para a experimentação socialista, era, na segunda metade do século XIX, periférica em termos de movimento socialista. O tardio desenvolvimento capitalista (recorde-se que a abolição da servidão só ocorre em 1861), realizado sob o marco autocrático do czarismo, responde por esta condição periférica.
Iniciarão o rompimento desse periferismo os populistas , tanto pela sua ação estritamente política quanto pelas suas preocupações teóricas, que os fazem, inclusive, procurar contatos diretos com Marx e Engels . Das dissidências do populismo, aliás, sairão aqueles a quem caberá introduzir o pensamento marxista na cultura política russa - especialmente Plekhanov que, no seu exílio suíço, criará, com outros intelectuais egressos do populismo, o grupo "Emancipação do Trabalho" (1883), embrião do futuro Partido Operário Social-Democrata Russo (1897). 	
Os embates entre marxistas e populistas revestem-se de importância, pois, pela primeira vez, discute-se a viabilidade da revolução socialista na Rússia, e Marx passa a ser referência nos meios revolucionários. Os populistas discordavam da premissa, assumida pelos marxistas, segundo a qual o capitalismo era um avanço em relação à autocracia. Os populistas acreditavam poder realizar uma revolução com base no campesinato, construindo um socialismo agrário com características russas, mas de alguma forma preservando a economia natural e a autarquia da comuna russa. Argumentavam que não havia necessidade de se passar pelo estágio capitalista na Rússia, pois esta se diferenciava consideravelmente dos outros países europeus. Do ponto de vista organizacional, os populistas agregavam-se em grupos de revolucionários profissionais e treinados para ações terroristas; tentavam conquistar operários e camponeses e se misturavam a eles com tal finalidade, dedicando-se arduamente a esse trabalho de doutrinação.
Os populistas interpretavam a obra de Marx de forma parcial e através de uma ótica sui-generis e simplista: apoiavam-se na crítica de Marx à economia política liberal para avaliar do desenvolvimento do capitalismo na Rússia. Na análise da acumulação primitiva pela expropriação dos camponeses, viam os aspectos negativos do desenvolvimento capitalista; a nova divisão social do trabalho seria um fenômeno fragmentador da individualidade, pois o camponês era ao mesmo tempo agricultor, pastor, artesão e pescador - e portanto auto-suficiente. Conseqüentemente, o modelo de industrialização necessário ao capitalismo teria que ser evitado.
Por outra parte, entre os marxistas russos - que começam a ser mais numerosos, inclusive graças aos empenhos do grupo "Emancipação do Trabalho", nos anos noventa - e os liberais havia alguns pontos de contacto, pois ambos proclamavam a necessidade de um desenvolvimento capitalista, ao mesmo tempo em que combatiam a radicalidade estéril dos populistas, que rechaçavam a idéia de uma sociedade nos moldes capitalistas vigentes na Europa ocidental. Entre aqueles que procuravam inspiração em Marx, porém, havia um claro corte: o corte que separava os marxistas que buscavam uma vinculação orgânica com o débil movimento operário, num projeto revolucionário efetivo, e aqueles que procuravam no marxismo tão somente uma chave heurística para compreender as possíveis vias de desenvolvimento econômico-social do país - estes ficariam conhecidos como marxistas legais .
Do ponto de vista da autocracia czarista, os populistas eram mais perigosos do que os marxistas legais e os liberais e, portanto, permitia-se que estes dois grupos publicassem suas obras, adotando-se uma política de não-repressão a eles (evidentemente, a postura era diversa em face dos marxistas revolucionários, como o prova a condenação, entre muitas, de Lênin ao exílio siberiano).
Figura destacada entre os marxistas legais, Struve incorporava supostos liberais e preconizava, para o avanço da sociedade russa, a aceleração da produção capitalista com o auxílio do Estado, a integração do campesinato na produção mercantil e a conseqüente criação de um mercado interno. O Estado
"pode conduzir uma política livre-cambista ou protecionista; pode lutar contra os excessos do capitalismo mediante a legislação industrial; em sua política agrária, pode pender a favor da grande propriedade fundiária ou da pequena posse, mas não está em condições de `fazer' o que pode ser resultado tão-somente de um certo processo histórico, e não pode organizar a produção num terreno absolutamente despreparado para ela" (Struve apud Strada, in Hobsbawm, org., III, 1984: 88-89).
  
	Struve combate a tese de Marx e Engels sobre o Estado:
"A negação do Estado por Marx e seus seguidores, negação que deriva da concepção do Estado como organização de domínio, tem sua explicação, ao nosso ver, no fato de que eles se deixaram levar muito longe na crítica do Estado contemporâneo, por um lado, e, por outro, ela recorda a afinidade genética entre os pontos de vista de Marx e as primeiras concepções de Proudhon" (id., ibid., p. 89).
Os marxistas legais vão paulatinamente se distanciando das postulações marxianas e adotando os ditames liberais, ao priorizarem o individualismo como princípio moral absoluto. Ainda segundo Struve,
"o liberalismo na sua forma pura é o reconhecimento dos direitos inalienáveis do indivíduo, que devem estar acima dos atentados de qualquer totalidade coletiva meta-individual, seja ela organizada como foi e tenha a denominação que tiver" (id., ibid., p. 90).
O jovem Lênin dirige severas críticas a Struve, denegando a ele a filiação marxista que reclama. Struve, segundo seu crítico, não atribui o devido peso à luta de classes peculiar ao capitalismo, nem antevê que a solução para esse fenômeno somente se daria com a revolução socialista. Juntamente com Bernstein, Struve concede ao Estado um papel de defensor da ordem, e seria mantido mesmo numa futura sociedade sem classes. Struve afirma que os marxistas haviam se desviado de Marx ao preconizarem reformas que não constavam no Manifesto... . Lênin retruca que as reformas estão explicitadas no Manifesto...: eram estratégias que visavam ampliar o desenvolvimento da luta pela derrocada do capitalismo, assinalando também que, para Marx, era essencial a concatenação das lutas dos revolucionários e dos trabalhadores.
Apesar de acusar os marxistas legais de democratas burgueses, Lênin preconizava uma aliança com eles, porquanto era imprescindível a expansão das idéias marxistas, não obstante a leitura vulgarizada dos marxistas legais, para se combater os desvarios populistas. Ademais, Lênin e os marxistas legais concordavam que o capitalismo era possível e desejável na Rússia naquele momento, ao contrário do que pensavam os populistas.
Os debates entre os marxistas legais e Lênin se acirraram na análise da questão do mercado, central para a compreensão do desenvolvimento do capitalismo na Rússia. Struve argumentava que o capitalismo ao expandir o mercado, traria um crescimento da mais-valia, que por sua vez seria absorvida pelos estratos médios, que eram numerosos na Rússia devido às  dimensões do país, e cuja demanda substituiria a demanda do comércio exterior. Este argumento fazia eco às idéias de Bernstein, segundo as quais o capitalismo beneficiaria as classes médias e os trabalhadores.
Lênin retrucava que a demanda não se resume a bens de consumo, mas também aos meios de produção e essa demanda absorveria a parte da mais-valia não absorvida pela demanda do consumo. Enquanto que os populistas afirmavam que não era possível o desenvolvimento do capitalismo na Rússia em razão também do crescente empobrecimento das massas, Lênin argumentava que a industrialização traria a expansão dos meios de produção, ou seja, a mais-valia transformar-se-ia paulatinamente em capital constante, pois o capitalismo gera um crescimento maior dos bens de capital em relação aos bens de consumo. O empobrecimento, conseqüentemente, recairia sobre os pequenos produtores descapitalizados e, portanto, incapacitados de concorrerem com o grande capital. Os trabalhadores, por seu turno, seriam parcialmente beneficiados por uma elevação do padrão de vida, quando comparado ao passado de miséria.
A contradição de que a capacidade de consumo depende do nível salarial, isto é, salários maiores significariam menor mais-valia extraída do trabalhador, porém incentivando o consumo, gerando maior produção e maiores lucros, poderia ser relativamente bem equacionada pelos capitalistas. Por sua vez, a capacidade de produção está imbricada na capacidade de consumo, ambas mediadas pelo consumo produtivo, que é o consumo de meios de produção - questão fundamental que tanto Bernstein quanto Struve não conseguiram apreender.
Outro pólo de divergências se deu em torno do problema da superprodução. Tugan-Baranovski, marxista legal e economista de nomeada, argumentava que,
"se a produção social fosse adequadamente planificada, se os dirigentes da produção tivessem completo conhecimento da demanda e o poder de transferir livremente o trabalho e o capital de um ramo da produção para outro, então, por mais baixo que fosse o consumo social, a oferta de mercadorias não poderia superar a demanda" (Tugan-Baranovski apud  Gustafsson, 1975: 409).  
 
Lênin lamentou que Tugan-Baranovski reduzisse todo o problema da superprodução a uma questão de normas e organização, o que sinalizava um definitivo afastamento dos marxistas legais da visão marxiana. Reiterando as colocações de Marx, de que a superprodução advinha da contradição "entre a tendência à ampliação ilimitada da produção e a necessidade de um consumo limitado (como conseqüência da situação das massas)" (Lênin in Gustafsson, 1975: 408), Lênin afirmava que a contradição produção-consumo só seria resolvida com a abolição das relações de propriedade peculiares ao capitalismo .
Estas polêmicas de algum modo reproduzem, na particularidade russa, o debate entre reformistas e revolucionários que, paralelamente, decorria no interior da social-democracia alemã. Como já o demonstraram vários analistas (entre os quais Gustafsson, 1975: 395 e ss), os marxistas legais são o pendant russo do revisionismo bernsteiniano. 
Contudo, mesmo entre aqueles marxistas que se aglutinavam no partido social-democrata criado em 1897 registravam-se colisões de monta. A mais significativa delas, explicitada no II Congresso do partido (Bruxelas, 1903), tinha imediatamente por motivo a concepção organizativa e opusera a maioria liderada por Lênin (os bolcheviques) à minoria (os mencheviques), cujo principal portavoz era Martov .
A cisão mal se desdobrara quando eclode a revolução de 1905, que se prolongaria, intermitentemente, até a derrota de 1907 .
A revolução de 1905 não teve a hegemonia de nenhum partido: eclodiu quando as tropas czaristas foram derrotadas pelos japoneses, o que trouxe um enfraquecimento da autoridade do governo. O evento que detonou a revolta popular foi o "domingo sangrento", quando tropas do exército mataram um milhar de manifestantes em São Petersburgo. Quanto ao caráter desse movimento de massa, Lênin escreveu:
"A peculiaridade da revolução russa está exatamente em que, por seu conteúdo social, foi uma revolução democrático-burguesa, enquanto que, por seus métodos de luta, foi uma revolução proletária. Foi democrático-burguesa porque o objeto imediato a que se propunha, e que podia alcançar diretamente por suas próprias forças, era a república democrática, a jornada de oito horas e o confisco dos imensos latifúndios da nobreza, medidas essas que a revolução burguesa da França realizou quase plenamente em 1792. A revolução russa foi, por sua vez, uma revolução proletária, não pelo proletariado ser sua força dirigente, mas também porque o meio de luta especificamente proletário, a greve, foi exatamente o meio principal para colocar as massas em movimento, e o fenômeno mais característico do sinuoso desenvolvimento dos acontecimentos decisivos" (Lênin apud Rosenberg, 1989: 69-70).
Para os mencheviques, a revolução russa teria de ser uma revolução que implantasse os parâmetros econômicos e sociais do desenvolvimento capitalista, através de um parlamento republicano que se encarregaria de realizar as reformas. O socialismo não seria viável devido à inferioridade numérica do operariado, já que a indústria era incipiente. Os social-democratas deveriam se abster de qualquer participação no governo, pois isso poderia ser interpretado como colaboração de classe e amortecimento do ímpeto revolucionário dos operários.
Lênin opinava que  o objetivo final deveria ser uma ditadura liderada pelos operários e camponeses, mas sem esquecer os estratos intermediários. Diz ele em uma crítica a Martínov, o grande ideólogo menchevique:
"Onde se encontra a embrulhada de Martínov? Na confusão da revolução democrática com a revolução socialista, em que esquece o papel da camada média, da camada popular existente entre a "burguesia" e o "proletariado" (a camada pequeno-burguesa dos pobres da cidade e do campo, os "semi-proletários", os pequenos proprietários), em que não compreende o verdadeiro significado do nosso programa mínino [...] De fato, basta pensar em todas reformas econômicas e políticas colocadas nesse programa, em reivindicações como as da república, o armamento do povo, a separação entre a igreja e o Estado, as plenas liberdades democráticas e as ousadas reformas econômicas. Por acaso, não é evidente que a implantação dessas reformas, calcadas na ordem burguesa, não é concebível sem a ditadura revolucionária democrática das classes dominadas? Não é evidente que aqui não se trata somente do proletariado como diferente da "burguesia", mas das "classes inferiores", que constituem a força propulsora de toda revolução democrática? E essas classes são formadas pelo proletariado e por milhões de pobres da cidade e do campo, que se desenvolvem em condições de vida pequeno-burguesas" (Lênin apud  Rosenberg, 1989: 76). 
	A revolução seria inconcebível sem o apoio e a participação dos camponeses, a classe então numericamente superior em toda extensão do império czarista. Lênin esperava que o exército se sublevasse contra o governo, já que a esmagadora maioria dos soldados era oriunda do campo. Em um primeiro momento, não se poderia abolir totalmente a propriedade privada, uma vez que isso poderia empurrar os camponeses para uma posição contra-revolucionária; poder-se-ia, porém, expropriar os latifúndios. A aliança do proletariado com os artesãos e os camponeses era uma necessidade histórica. Lênin observava que
"a república pressupõe necessariamente um governo, e nenhum social-democrata jamais duvidou de que esse governo terá que ser exatamente um governo burguês. Por acaso, há alguma diferença entre dar viva ao governo provisório e aclamar a república democrática?
		Não, mil vezes não, camaradas! Não tenham medo de que a mais decidida participação na revolução republicana, participação que não deve se deter diante de nada, ao lado da burguesia revolucionária, possa nos profanar" (Lênin apud Rosenberg, 1989: 79). 
	A participação da social-democracia em um governo de coalizão não deveria se descartada pois, nos primeiros momentos, a propriedade privada e suas leis teriam de permanecer. Essa nova situação abriria um espaço para o desenvolvimento da consciência política do operariado e, conseqüentemente, seria um trampolim para o socialismo. A revolução é
"burguesa no sentido do seu conteúdo econômico social. O que significa: as tarefas da revolução que está ocorrendo na Rússia não ultrapassam o âmbito da sociedade burguesa. Nem mesmo a mais plena vitória da atual revolução, isto é, a conquista da república mais democrática e a confiscação de toda a terra dos proprietários pelos camponeses, abalará os fundamentos da ordem social burguesa" (Lênin apud Strada, in Hobsbawm, org., III, 1984: 173).
	Aqui, Lênin tinha em mente sua estratégia de expandir o núcleo de revolucionários profissionais que, com arrojo e competência, poderia, em um momento oportuno, alijar do poder os agrupamentos e partidos adversários.
As dissensões não paravam aí: a questão agrária gerou árduos debates. Os bolcheviques eram, em sua maioria, pelo confisco e nacionalização de todas as terras. Outros propunham a desapropriação das glebas e posterior entrega de lotes aos camponeses. Os mencheviques queriam a municipalização das terras sob a administração de governos locais, e posterior distribuição em lotes arrendados. A diversidade das condições dentro da enorme extensão do país não poderia ser adaptada a um único organismo central e, ademais, provocaria uma 
"revolta geral dos camponeses contra a tentativa de intervenção do Estado para ter a posse dos lotes de terra próprios dos camponeses, contra a tentativa de nacionalizá-los[...]. É difícil inventar um meio melhor para suscitar nos camponeses a aversão pela República democrática e instigá-los à contra-revolução" (Maslov apud Strada, in Hobsbawm, org., III, 1984: 139).
Quanto aos sindicatos, Lênin queria que a luta rompesse os limites das reivindicações econômicas, fragmentadas nas diversas profissões, e carregasse a idéia da superação do capitalismo, apontando aos operários a indissolúvel ligação entre os interesses de todas as categorias profissionais, fazendo-lhes perceber o processo de luta de classes. Combatia energicamente as reivindicações que
"diziam unicamente respeito às relações dos operários de uma dada profissão com os seus respectivos patrões, e não tinham outro resultado do que o de ensinar aqueles que vendiam a sua força de trabalho a vender mais vantajosamente esta `mercadoria' e a lutar contra os compradores no terreno de uma transação puramente comercial. Estas denúncias podiam converter-se (com a condição de serem utilizadas num certo grau pela organização dos revolucionários) em ponto de partida e elemento integrante da atividade social-democrata; mas também podiam conduzir (e com o culto da espontaneidade tinham forçosamente de conduzir) à luta `exclusivamente sindical' e a um movimento operário não social-democrata. A social-democracia dirige a luta da classe operária não só para obter condições vantajosas de venda da força de trabalho, mas para que seja destruído o regime social que obriga os não possuidores a venderem-se aos ricos. A social-democracia representa a classe operária não só na sua relação com um dado grupo de patrões, mas também nas suas relações com todas as classes da sociedade contemporânea, com o Estado como força política organizada" (Lênin,1982: 119).
	A consciência de classe que emergiria desse processo de trabalho político é, para Lênin, um dos momentos axiais do movimento revolucionário. Essa intervenção incisiva fica mais clara em suas próprias palavras:
"A consciência política de classe não pode ser levada ao operário senão do exterior, isto é, de fora da luta econômica, de fora da esfera das relações entre operários e patrões. A única esfera em que se pode obter estes conhecimentos é na esfera das relações de todas as classes e camadas com o Estado e o governo, na esfera das relações de todas as classes entre si [...]. Para trazer conhecimentos políticos para os operários, os social-democratas devem ir a todas as classes da população, devem enviar a toda parte destacamentos do seu exército" (Lênin, 1982: 135-136).
Parvus (pseudônimo de A. L. Guelfdand), um "menchevique de esquerda", critica duramente esse posicionamento de Lênin, argumentando que suas formulações sobre a inserção da vanguarda revolucionária no movimento operário eram um bernsteinianismo às avessas: "Os marxistas iluminados conduzem a massa revolucionária ao leito social-revolucionário" (Parvus apud Strada, in Hobsbawm, org., III, 1984: 169). Para Parvus,
"a organização é a forma para a qual aflui o processo social-revolucionário e que é por ele próprio criada", [e que] "não há uma forma organizativa capaz de abarcar sozinha toda a luta de classe do proletariado" (id., ibid.).
O operariado deveria atuar de forma autônoma e unitária com relação às outras forças políticas. O papel do proletariado revolucionário era lutar contra o absolutismo e, depois, contra a burguesia, que deveria ser impedida de participar do poder. Como não era ainda exequível a possibilidade da sociedade socialista ser implantada de imediato, o proletariado construiria uma "república democrática" ampliando as funções do Estado para abarcar cada vez mais as demandas democráticas dos revolucionários, utilizando e adequando a democracia burguesa para o aprimoramento organizativo do operariado, necessário aos embates políticos. A "democracia operária" de Parvus seria
"um passo além da democracia burguesa. Não podemos ainda considerar como nossa tarefa a transformação da revolução burguesa em revolução socialista. [...] Nossa tarefa consiste em ampliar os limites da revolução burguesa  na medida em que  - no interior dessa - impulsionamos no sentido dos interesses do proletariado e, na âmbito da Constituição burguesa, criamos a base mais ampla possível para a transformação revolucionária da sociedade" (Parvus apud Salvadori, in Hobsbawm, org., III, 1984: 282).
Os interesses dos operários e dos camponeses divergiam na medida que estes tendiam, segundo Parvus, a optar pela manutenção da pequena propriedade no campo. O proletário revolucionário teria de se engajar no difícil processo de trazer os camponeses para seu lado, orientá-los para que se evitasse qualquer retrocesso. É porisso que ao operariado cabia o papel histórico de timoneiro e líder da revolução, não podendo haver nenhuma paridade entre as classes.
O soviete era, para Parvus, a instituição ideal para as tarefas de ampliação da democracia operária, já que era composta pelas massas populares: operários, camponeses e soldados. Sua atuação enriqueceria o debate dentro da social-democracia, trazendo a ela subsídios da prática revolucionária do dia-a-dia. O soviete seria o embrião da "revolução permanente", mais tarde abraçada também por Trótski.
A Revolução Russa de 1905 reverberou portentosamente por todo o continente e atribuiu ao movimento operário uma maior dose de impetuosidade. Greves proliferavam, gerando repressão e forjando líderes. Mais de duzentos mil mineiros alemães do Ruhr paralisaram o trabalho por mais de um mês, empurrando os vacilantes sindicatos social-democratas a uma posição mais radical . Outra onda paredista se espraiou pela Alemanha em protesto contra o sistema eleitoral. As discussões no meio operário incluiam a Revolução Russa, sua importância frente a um capitalismo que se modernizava e se expandia nas colônias, e os novos posicionamentos estratégicos da classe operária.
A ação que então tomou corpo e ganhou expressão no movimento operário europeu foi a greve de massa. Utilizada como arma política em vários países entre 1902 e 1904, essa forma de luta ganhou relevo na Revolução Russa. Na Alemanha, o partido social-democrata, controlado pela sua fração mais moderada, recusava-se a admitir a greve de massa, enveredando pelo caminho das reformas dentro da legalidade burguesa. A fração minoritária, porém, via na Revolução Russa um modelo a ser adotado pelo movimento operário alemão. Segundo Salvadori, a ala radical argumentava que
"a greve de massa constituía uma `lição' para o proletariado alemão, o qual devia se preparar para ações ofensivas, travadas fora da estratégia tradicional parlamentar e sindical-reivindicativa, com a finalidade de obter incisivas modificações políticas[...]" (Salvadori, op. e loc. cit., p. 249).
Todavia, os sindicatos social-democratas rechaçaram essa estratégia. Adeptos do gradualismo, aplaudiram a eclosão da revolução na Rússia, mas consideravam que as condições objetivas nesse país eram bem diversas das que reinavam na Alemanha. A greve geral poderia ser eventualmente adotada como defesa dos direitos políticos e sindicais, porém jamais para fins revolucionários: o importante naquele momento era expandir a organização.
Bebel, líder do Partido Social-Democrata Alemão (SPD), afirmava que a burguesia alemã estava unida e forte, o oposto do movimento operário, que se encontrava dividido. Eduard David, discursando no congresso de 1905, dizia:
"Conquistar o poder político não significa nada mais do que conquistar a maioria do povo para nossas idéias. Mas conquistar algo enquanto partido de minoria, seguindo o caminho violento, não é possível nem agora nem nunca" (David apud Salvadori, in Hobsbawm, org., III, 1984: 254).
	Com a ampliação das greves por todo o país, o debate sobre as semelhanças e discrepâncias entre Rússia e Alemanha, o caráter da greve de massa, o papel do partido e dos sindicatos foram ganhando espaço e importância. Consideráveis parcelas do movimento operário começaram a perceber com maior clareza as colocações de Rosa Luxemburg, Clara Zetkin, Liebknecht, Kautsky, Mehring e outros, considerados então como radicais do partido.
A burguesia, amedrontada pela avalanche de movimentos paredistas de cunho político, combateu-os primeiro através da imprensa, exigindo repressão a qualquer greve de massa. Medidas legais foram adotadas para o combate de quaisquer manifestações antimilitaristas. As lideranças sindicais, temendo o confronto, eximiam-se de apoiar qualquer greve de massa. Conseguiram importante vitória no congresso do SPD em 1906, quando aprovou-se uma resolução que praticamente condenou a ala radical e suas proposições.
A fratura consolidada: das práticas à
própria designação político-partidária
A alternativa reforma/revolução - pois foi assim posta a questão no debate da Segunda Internacional (que, naturalmente, não se limitou aos dois casos emblemáticos, o alemão e o russo, a que me referi) - tornou-se, desde o debate travado no interior da social-democracia, entre os últimos anos do século XIX e os primeiros do nosso século, uma disjuntiva. O corte passou, inclusive, a caracterizar a topologia política do movimento socialista: reformistas e revolucionários, revisionistas e ortodoxos, minimalistas e maximalistas, direita e esquerda.
Na proeminência do debate, os meios da ação socialista: os reformistas pensando a via ao socialismo como gradual e evolutiva, os revolucionários insistindo na violência necessária para contrarrestar a resistência do capital. No fundo da polêmica, a questão da propriedade privada dos meios de produção: os reformistas considerando a sua democratização e/ou eventual controle social, os revolucionários sustentando o seu antagonismo em face de qualquer intento de uma sociedade livre de exploração e alienação.
O caráter paradigmático do debate no interior da Segunda Internacional (tanto alemã quanto russa) consiste em que ele situou a problemática em suas dimensões mais substantivas - e de forma tal que, corrido quase um século desde aqueles confrontos, a problemática não foi estruturalmente modificada. Por mais que a adjetivação venha mudando, a essência do confronto permanece irredutível: o que fazer com a propriedade privada.
O debate, porém, foi interrompido no plano teórico: antes que todas as suas potencialidades viessem à tona, explodiu a guerra imperialista - e, na sua voragem, a crise latente da Segunda Internacional eclodiu, dilacerando a instituição. E nem houve tempo para que alguém pretendesse seriamente reunir os seus cacos: ao fim da guerra, as posições social-democratas estavam radicalmente polarizadas - na Alemanha, a direita do partido, com Noske à frente, afogou em sangue a revolução, levando ao ordálio Rosa Luxemburg e seus companheiros; na Rússia, contra todos os resquícios do marxismo legal, os bolcheviques conquistavam o poder.
A polarização ainda se aprofundaria, e o divisor de águas era posto pela Revolução bolchevique: concebida por Lênin e o Comitê Central como o golpe no elo mais frágil da cadeia imperialista, a revolução se pensava como o passo inicial de um processo mundial, cujo centro nevrálgico estaria no Ocidente (especialmente no ponto quente, a Alemanha), mas que incidiria também no Oriente - num caso, revolução socialista; noutro, revolução democrática.
Nestas circunstâncias, a posição prática diante da Revolução russa definia a posição prática diante das questões efetivamente essenciais do socialismo. A fratura que vinha de antes revelou-se, então, em toda a sua magnitude: a maioria dos que se alinhavam com os projetos reformistas, revisionistas ou minimalistas recusaram à Revolução russa a solidariedade militante que ela exigia imperativamente - porquanto objeto de brutal repressão militar imperialista. Entre a Revolução, que suprimia a propriedade privada dos meios de produção no marco do comunismo de guerra, e a estabilização imperialista proposta pela Liga das Nações, os reformistas inclinaram-se em peso para esta última.
A partir de então, a fratura explicitou-se plena e irreversivelmente. Na defesa de um projeto revolucionário, os bolcheviques deram vida à Internacional Comunista (1919) - a Terceira Internacional ; nos partidos social-democratas, as frações revolucionárias viram-se compelidas, senão ao preço de submeterem-se às práticas reformistas, à cisão: dos partidos social-democratas ou socialistas nascem os partidos comunistas.
A fratura chega ao nível da nominação: enquanto os reformistas conservarão a fórmula "social democracia", ou o rótulo "socialista" (este freqüentemente adjetivado como "democrático"), os revolucionários recuperarão a nomenclatura de 1848.
Uma tal fratura, independentemente dos juízos que dela se façam, teve conseqüências funestas para o movimento socialista revolucionário, em particular, e para o movimento operário, em geral - e, dada a gravitação dos trabalhadores na sociedade de base urbano-industrial deste século, para o conjunto das forças sociais e políticas democráticas. Dois capítulos da história do século XX são suficientes para indicar a extensão daquelas conseqüências: um primeiro - como esta divisão impediu um combate comum contra a emergência do nazi-fascismo; um segundo - como, após a derrota do nazi-fascismo, a bipolarização do mundo rebateu nesta divisão, impedindo avanços sociais mais duradouros.
Seria preciso experimentar, no último terço do século, a simultaneidade de duas crises (a crise do "socialismo real", com o qual estiveram compromissados aqueles que se pretendiam fiéis à perspectiva revolucionária, e a crise do Welfare State, na gerência do qual pontificaram os reformistas), no quadro de uma crise global da ordem do capital, para que se criassem as condições - não para suturar aquela fratura com o fio de uma nova solidariedade tecida na derrota, mas para repensar, em contextos radicalmente novos, a relação entre reforma e revolução, certamente deslocando a disjuntiva reforma ou revolução.
 
À guisa de conclusão
 
Independentemente das várias teorias existentes (marxistas ou não) para explicar a incidência do reformismo no campo sócio-político das forças revolucionárias - e sabe-se da multiplicidade dessas teorias, que vão desde considerações sobre os efeitos corruptores do capital sobre estratos de classes (recorde-se a concepção de Lênin sobre a aristocracia operária) até análises sobre os impactos sistêmico-integradores da ordem burguesa (pense-se no sistema cultural parsoniano, vinculante dos sistemas de personalidade e social), passando pelas avaliações, de corte weberiano, acerca de invariantes burocratizadoras (lembre-se os estudos de Michels sobre estruturas partidárias) - independentemente das várias explicações teóricas, o que se verifica, na história do socialismo moderno, e concretamente na do socialismo de matriz proletária, é a constante relação entre reforma e revolução. O que se constatou ao longo da segunda metade do século XIX, ao contrário do que pensava Marx, não se deveu a uma imaturidade do proletariado - e tanto que, em face do proletariado mais que maduro da abertura do último terço do século XX, o fenômeno se repetiu . Não pode haver a menor dúvida: para além de juízos valorativos, o fato histórico-social é que reforma e revolução têm se constituído em pólos de tensão do movimento socialista (inclusive o de base proletária).
E não me parece que esta tensionalidade tenha a ver com qualquer pendularidade ou circularidade históricas; ao contrário, reforma e revolução até hoje se apresentaram como simultaneamente constitutivas da polaridade que se identifica no movimento socialista - tudo sugere que esta cabeça de Jano é própria deste movimento.  
Paradoxalmente, a avaliação histórica serena mostra, de uma parte, que processos revolucionários stricto sensu podem ser compelidos, sem a perda do seu caráter revolucionário, a reduzir o âmbito de suas projeções imediatas e a jogar seu futuro numa perspectiva reformista. O período da NEP soviética talvez ilustre paradigmaticamente esta possibilidade que, porém, não esteve reduzida à experiência soviética (pense-se nas reformas introduzidas na Hungria de J. Kádar ou naquelas que foram implementadas em Cuba no início da década de oitenta, na decorrência do Segundo Congresso do PCC). Por outra parte, a mesma avaliação poderá indicar que profundas reformas sociais (por exemplo, as realizadas na Escandinávia na seqüência da crise de 1929 ou as efetuadas na Grã-Bretanha, no imediato segundo pós-guerra) não tiveram qualquer incidência no sentido de vulnerabilizar a ordem do capital.
Indicações empíricas como essas reforçam a hipótese de que a colocação do problema nos mesmos termos em que ele fixou-se na tradição socialista recente - isto é, em termos de alternativa excludente, de disjuntiva: reforma ou revolução - torna-se pouco fecunda para as forças sociais efetivamente interessadas na ultrapassagem da ordem burguesa. Com a experiência histórica do século XX, talvez seja mais produtivo pensar aqueles dois pólos como vinculados pela copulativa e.
Entretanto, para que o enfrentamento da crise do capital mediante a ótica de reforma e revolução - transcendendo hoje bizantinas discussões acerca de meios revolucionários e formas de ação - não se degrade numa nova retórica, é necessário que ele se conduza com os dois traços postos em evidência por Marx: uma perspectiva de classe fundada no estatuto dos trabalhadores e a determinação de suprimir a propriedade privada dos meios de produção.
E isto porque, mesmo diante das formidáveis transformações ocorridas e em curso no capitalismo contemporâneo, só terão incidência revolucionária (entendida aqui a revolução como o processo real que já hoje derrói as bases da sociedade estabelecida - e este é o entendimento ontológico de Marx) as alterações socialmente conduzidas segundo aqueles parâmetros.
Neste preciso sentido, a apreciação marxiana do que definia e delimitava a revolução em face da reforma permanece indubitavelmente válida.
 
Bibliografia
 
Abendroth, W. A história social do movimento trabalhista europeu. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1977.
Abramides, M. B. C., Cabral, M. S. R. O novo sindicalismo e o serviço social. S. Paulo, Cortez, 1995.
Adler, M. El socialismo y los intelectuales. México, 1980.
Alayón, N. Hacia la historia del trabajo social en Argentina. Lima, CELATS, 1980.
Alexandrian, S. El socialismo romântico. Barcelona, Laia, 1983.
Almeida,  A. A. Possibilidades e limites da teoria do serviço social. Rio de Janeiro, Francisco Alves, 1978.
Anderson, P. Linhagens do estado absolutista. S. Paulo, Brasiliense, 1985.
Althusser, L. A favor de Marx. Rio de Janeiro, Zahar, 1979.
Aricó, J. Marx y América Latina. México, Alianza, 1982.
Barroco, M. L. S. Ontologia social e reflexão ética. S. Paulo, tese de doutoramento, mímeo, PUC-SP, 1997.
Beer, M. História do socialismo e das lutas sociais. Rio de Janeiro, Calvino, 1944.
Bernal, J. D. Historia social de la ciencia. Barcelona, Península, 1989.
Bernstein, E. Las premisas del socialismo y el porvenir de la socialdemocracia. México, Siglo XXI, 1975.
Bertelli, A. R. (1996) Crítica da economia política e transformações capitalistas. Livro ainda inédito. Originais cedidos pelo autor.
Blackburn, R. (org.). Depois da queda. O fracasso do comunismo e o futuro do socialismo. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1993.
Bobbio, N. e Bovero, M. Sociedade e estado na filosofia política moderna. S. Paulo, Brasiliense, 1986.
Bordin, L. O marxismo e a teologia da libertação. Rio de Janeiro, Dois Pontos, 1987.
Bottigelli, E. A gênese do socialismo científico. Lisboa, Estampa, 1971.
Bottomore, T. (ed.) Dicionário do pensamento marxista. Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1988.
Buber, M. O socialismo utópico. S. Paulo, Perspectiva, 1972.
Cardoso, F. C. Organização das classes subalternas: um desafio para o serviço social. S. Paulo, Cortez/EDUFMA, 1995.
Carone, E. A II Internacional. S. Paulo, EDUSP/Anita, 1993.
Carrillo, S. "Eurocomunismo" e Estado. S. Paulo, DIFEL, 1978.
Carvalho, A. M. P. A questão da transformação e o trabalho social. S. Paulo, Cortez, 1983.
Carvalho, R. R. Positivismo e serviço social. Rio de Janeiro, UFRJ, 1990.
Cerroni, U. (org.). O pensamento político. Lisboa, Estampa, IV, 1975.
Cerroni, U. Teoria do partido político. S. Paulo, Ciências Humanas, 1982.
Cherniaev, A. et alii. El movimiento obrero internacional. Historia y teoría. Moscu, Progreso, 1-2-3-4-5, 1982. 
Claudín, F. Marx y Engels y la revolución de 1848. México, Siglo XXI, 1975.
_______ . Eurocomunismo y socialismo. Madrid, Siglo XXI, 1977.
_______ . A crise do movimento comunista. S. Paulo, Global, I-II, 1985-1986.
Cole, G. D. H. Historia del pensamiento socialista. México, Fondo de Cultura Económica, I-II-III-IV, 1975.
Cornu, A. Carlos Marx y Federico Engels. Havana, Editorial de Ciencias Sociales, I-II-III-IV, 1976.
Costa, S. G. Signos em transformação. A dialética de uma cultura profissional. S. Paulo, Cortez, 1995.
Coutinho, C. N. O estruturalismo e a miséria da razão. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1974.
_________ . A dualidade de poderes. S. Paulo, Brasiliense, 1985.
__________ . Gramsci. Um estudo sobre seu pensamento político. Rio de Janeiro, Campus, 1989.
Cueva, A. O desenvolvimento do capitalismo na América Latina. S. Paulo, Global, 1983.
_______. La teoría marxista. Quito, Porvenir, 1987.
Della Volpe, G. Rousseau y Marx. Barcelona, Martínez Roca, 1969.
Deutscher, I. Trotski. O profeta armado. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1968.
Díaz, G. G. La concepción del hombre en Marx. Salamanca, Sígueme, 1975.
Dolléans, E. Le chartisme (1831-1848). Paris, Marcel Rivière, s.d.
Droz, J. (org.). Histoire générale du socialisme. Paris, PUF, 1972.
Dussel, E. El último Marx (1863-1882) y la liberación latinoamericana. México, Siglo XXI, 1990.
Engels, F. El Anti-Duhring o "la revolución de la ciencia" de Eugenio Duhring. Buenos Aires, Claridad, 1972.
______ . A situação da classe trabalhadora na Inglaterra. S. Paulo, Global, 1985 (há edição portuguesa, sob o mesmo título - Porto, Afrontamento, 1976, com um posfácio de E. J. Hobsbawm).
Faleiros, V. P. Metodologia e ideologia do trabalho social. S. Paulo, Cortez, 1983.
_________ . "Confrontos teóricos do movimento de reconceituação na América Latina". Serviço Social & Sociedade. S. Paulo, Cortez, ano VIII, nº 24, agosto de 1987. 
_________ . Estratégias em serviço social. S. Paulo, Cortez, 1997.
Fernandes, F. Fundamentos empíricos da explicação sociológica. S. Paulo, Nacional, 1967.
________ . Sociedade de classes e subdesenvolvimento. Rio de Janeiro,  Zahar, 1968.
________ . "Introdução". In Fernandes, F. (org.). Marx-Engels. História. S. Paulo, Ática, 1983.
Fetscher, I. Karl Marx e os marxismos. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1970.
Frederico, C. O jovem Marx. As origens da ontologia do ser social. S. Paulo, Cortez, 1995.
Garaudy, R. Karl Marx. Rio de Janeiro, Zahar, 1967.
Giddens, A. Capitalismo e moderna teoria social. Lisboa, Presença, 1984.
_______ . As consequências da modernidade. S. Paulo, EDUNESP, 1991.
Grisoni, D. (coord.). Histoire du marxisme contemporain. Paris, UGE, 1-2-3, 1976-1977.
Guerra, Y, A instrumentalidade do serviço social. S. Paulo, Cortez, 1995.
Gurvitch, G. Proudhon e Marx. Lisboa, Presença, I-II, s.d.
Gustafsson, B. Marxismo y revisionismo. Barcelona, Grijalbo, 1975.
Haupt, G. La II Internazionale. Firenze, La Nuova Italia, 1973.
Heller,  A. O quotidiano e a história. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1972.
Hirano, S. (org.). Pesquisa social. Projeto e planejamento. S. Paulo, T. A. Queiroz, 1988.
Hobsbawm, E. J. (org.) História do marxismo. Rio de Janeiro, Paz e Terra, I, II, III, IV, 1979, 1982, 1984 e 1984a.
Hobsbawm, E. J. Era dos extremos. S. Paulo, Cia. das Letras, 1996
__________ . Mundos do trabalho. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1987.
__________ . A era das revoluções. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1989.
__________ . Revolucionários. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1989a.
Horkheimer, M. e Adorno, T. W. Dialéctica del iluminismo. Buenos Aires, Sur, 1971.
Huberman, L. História da riqueza do homem. Rio de Janeiro, Zahar, 1983.
Iamamoto, M. V. e Carvalho, R. Serviço social e relações sociais no Brasil. S. Paulo, Cortez, 1983.
Iamamoto, M. V. Renovação e conservadorismo no serviço social. S. Paulo, Cortez, 1992.
Ianni, O. O colapso do populismo no Brasil. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1971.
Jackson, J. H. Marx, Proudhon e o socialismo europeu. Rio de Janeiro, Zahar, 1963.
Joll, J. La Internacional. Movimiento obrero 1889-1914. Barcelona, Icaria, 1976.
Kautsky, K. As três fontes do marxismo. Porto, Textos Marginais, 1975.
Kolakowski, L. Las principales corrientes del marxismo. Madrid, Alianza, I-II-III, 1985.
Kriegel, A. Las Internacionales Obreras. Barcelona, Orbis, 1986.
Kofler, L. et alii  (orgs.). Conversando com Lukács. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1969.
Labica, G. As Teses sobre Feuerbach, de Karl Marx. Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1990.
Lápine, N. O jovem Marx. Lisboa, Caminho, 1983.
Lefebvre, H. Pour connaître la pensée de Karl Marx. Paris, Bordas, 1966.
Leiby, J. A. A history of Social Welfare and Social Work in the United States. New York, Columbia University Press, 1978.
Lênin, V. I. Cultura e revolução cultural. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1968.
________ . "As três fontes e as três partes constitutivas do marxismo". Obras escolhidas. Lisboa-Moscou, Avante!-Progresso, I, 1978.
________ . Obras escolhidas. S. Paulo, Alfa-Ômega, I-II-III, 1982.
________ . O desenvolvimento do capitalismo na Rússia. S. Paulo, Abril Cultural, 1982a.
Löwy, M. e Sayre, R. Revolta e melancolia. Petrópolis, Vozes, 1995.
Löwy, M. Método dialético e teoria política. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1975.
_____ . La teoría de la revolución en el joven Marx. México, Siglo XXI, 1978. 
_____ . Marxismo e teologia da libertação. S. Paulo, Cortez, 1991.
_____ . As aventuras de Karl Marx contra o Barão de Munchhausen. S. Paulo, Cortez, 1994.
Lukács, G. El asalto a la razón. Barcelona-México, Grijalbo, 1968.
______ . Marxismo e teoria da literatura. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1968a.
_______. História e consciência de classe. Porto, Escorpião, 1974.
_______ . Il giovane Marx. Roma, Riuniti, 1978.
Luxemburg, R. Reforma social ou revolução? S. Paulo, Global, 1986.
_________ . Reforma, revisionismo e oportunismo. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1975.
Macpherson, C. B. A teoria política do individualismo possessivo. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1979.
Machado, L. E. O conservadorismo - elementos de caracterização e crítica. Rio de Janeiro, dissertação de mestrado, mímeo, UFRJ, 1997.
Maguiña Larco,  A. Desarrollo capitalista y trabajo social. El caso del Peru. Lima, CELATS, 1979.
Mandel, E. A formação do pensamento econômico de Karl Marx. Rio de Janeiro, Zahar, 1968.
______ . Crítica do eurocomunismo. Lisboa, Antídoto, 1978.
Mannheim, K. Ideologia e utopia. Rio de Janeiro, Zahar, 1976.
Manrique Castro, M. História do serviço social na América Latina. S. Paulo, Cortez, 1984.
Marcuse, H. Razão e revolução. Rio de Janeiro, Saga, 1969.
_______ . A ideologia da sociedade industrial. Rio de Janeiro, Zahar, 1969a.
Markus, G. Marxismo y "antropologia". Barcelona, Grijalbo, 1973.
_______ .Teoria do conhecimento no jovem Marx. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1974.
Martinelli, M. L. Serviço Social: identidade e alienação. S. Paulo, Cortez, 1989.
Marx, K. e Engels, F. Obras escolhidas. Rio de Janeiro, Vitória, 1-2-3, 1961-1963.
________________ .  La ideología alemana.   Montevidéo/
Barcelona, Pueblos Unidos/Grijalbo, 1970.
______________ . A ideologia alemã. Feuerbach. S. Paulo, Ciências Humanas, 1982.
______________ . Manifesto do partido comunista. S. Paulo, Novos Rumos, 1986.
______________ . A sagrada família ou Crítica da crítica crítica. Contra Bruno Bauer e consortes. Lisboa/S. Paulo, Presença/
S. Paulo, s.d.
Marx, K. A questão judaica. Rio de Janeiro, Laemmert, 1969.
______ . O 18 brumário e Cartas a Kugelman. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1969 a. 
_____ . Elementos fundamentales para la crítica de la economía política. (Borrador) 1857-1858. Buenos Aires-México, Siglo XXI, I-II-III, 1971, 1973, 1976.
_____ . Critique de la philosophie du droit de Hegel. Paris, Aubier, 1971.
_____ . "Différence de la philosophie naturelle chez Démocrite et chez Épicure". In Oeuvres. Philosophie. Paris, Gallimard, col. La Pléiade, III, 1982.
_____ . Para a crítica da economia política. Salário, preço e lucro. O rendimento e suas fontes. S. Paulo, Abril Cultural, 1982.
_____ . O capital. Crítica da economia política. S. Paulo, Abril Cultural, I, 1, 1983, 2, 1984.
_____ . A burguesia e a contra-revolução. S. Paulo, Ensaio, 1987.
_____ . Miséria da filosofia. S. Paulo, Global, 1989.
Martins, J. S. (org.). Introdução crítica à sociologia rural. S. Paulo, Hucitec, 1986.
Mattick, P. Rebeldes y renegados. Barcelona, Icaria, 1978.
Merquior, J. G. O liberalismo. Antigo e moderno. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1991.
Mészáros, I. O poder da ideologia. S. Paulo, Ensaio, 1996.
Michels, R. Os partidos políticos. S. Paulo, Senzala, s.d.
Moniz Bandeira, L. A. O governo João Goulart. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1977.
Moreira Alves, M. H. Estado e oposição no Brasil (1964-1984). Petrópolis, Vozes, 1987.
Mota, C. G. História moderna e contemporânea. S. Paulo, Moderna, 1986.
Mouro, H., Carvalho, A. Serviço social no Estado Novo. Coimbra, Centelha, 1987. 
Nisbet, R. Os filósofos sociais. Brasília, UnB, 1982. 
______ . O conservadorismo. Lisboa, Estampa, 1987.
Netto, J. P. "A crítica conservadora à reconceptualização". Serviço Social & Sociedade. S. Paulo, Cortez, ano II, nº 5, março de 1981.
________ . "Introdução". In Netto, J. P. (org.). Engels/Política. S. Paulo, Ática, 1982.
________ . "O serviço social e a tradição marxista". Serviço Social & Sociedade. S. Paulo, Cortez, ano X, nº 30, abril de 1989.
_________. Democracia e transição socialista. Belo Horizonte, Oficina de Livros, 1990.
________ . Ditadura e serviço social. S. Paulo, Cortez, 1991.
________ . Capitalismo monopolista e serviço social. S. Paulo, Cortez, 1992.
Nisbet, R. Os filósofos sociais. Brasília, Universidade de Brasília, 1982.
_______ . O conservadorismo. Lisboa, Estampa, 1987.
Palma, D. La reconceptualización. Una búsqueda en América Latina. Buenos Aires, Ecro, 1977.
________ . A prática política dos profissionais. O caso do serviço social. S. Paulo, Cortez, 1987.
Parias, L.-H. (org.). Historia general del trabajo. Barcelona, Grijalbo,I-II-III-IV, 1965.
Pavão, A. M. B. O princípio de autodeterminação no serviço social. S. Paulo, Cortez, 1983.
Prestipino, G. El pensamiento filosófico de Engels. México, Siglo XXI, 1977.
Quiroga, C. Invasão positivista no marxismo: manifestações no ensino da metodologia do serviço social. S. Paulo, Cortez, 1991.
Rodrigues da Silva, L. M. M. Aproximação do serviço social à tradição marxista: caminhos e descaminhos. S. Paulo, tese de doutoramento, mímeo, PUC-SP, 1991.
Rosdolsky, R. Génesis y estructura de El capital de Marx. Estudios sobre los Grundrisse. México, Siglo XXI, 1986.
Rosenberg, A. Democracia e socialismo. S. Paulo, Global, 1986.
________ . História do bolchevismo. Belo Horizonte, Oficina de Livros, 1989.
Rouanet, S. P. Mal-estar na modernidade. S. Paulo, Cia. das Letras, 1993.
Sader, E. (org.) O mundo depois da queda. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1995.
Santos, C. "Práxis e revolução: Marx (1844-1847)". Serviço Social & Sociedade. S. Paulo, Cortez, ano XV, nº 45, agosto de 1994.
Silva, M. O. S. "A crise dos projetos de transformação social e a prática profissional do serviço social". Serviço Social & Sociedade. S. Paulo, Cortez, ano XIII, nº 40, dezembro de 1992.
Silva, M. O. S. (org.) Serviço Social e o popular: resgate teórico-metodológico do projeto profissional de ruptura. S. Paulo, Cortez, 1995.
Simionatto, I. Gramsci. Sua teoria, incidência no Brasil, influência no serviço social. S. Paulo, Cortez/UFSC, 1995.
Skinner, Q. As fundações do pensamento político moderno. S. Paulo, Cia. das Letras, 1996.
Soboul,  A. História da revolução francesa. Rio de Janeiro, Zahar, 1981.
Sousa, L. E. Exercício da política. S. Paulo, Cortez, 1991.
Sweezy, P. M. Ensaios sobre o capitalismo e o socialismo. Rio de Janeiro, Zahar, 1965.
Tavares, M. C. Da substituição de importações ao capitalismo financeiro. Rio de Janeiro, Zahar, 1972.
Thompson, E. P. A miséria da teoria ou um planetário de erros. Uma crítica ao pensamento de Althusser. Rio de Janeiro, Zahar, 1981.
___________ . A formação da classe operária inglesa. Rio de Janeiro, II-III, 1987.
Touchard, J. (org.). História das idéias políticas. Lisboa, Europa-América, VII, 1976.
Trotsky, L. A história da revolução russa. Rio de Janeiro, Saga, 1-2-3, 1967.
_______ . A revolução de 1905. S. Paulo, Global, s.d.
Tvardovskaia, V. A. El populismo ruso. México, Siglo XXI, 1978.
Weber, M. A ética protestante e o espírito do capitalismo. S. Paulo, Pioneira, 1967.
_______ . Metodologia das ciências sociais. S. Paulo, Cortez/Unicamp, 2, 1992.
Weffort, F. C. (org.). Os clássicos da política. S. Paulo, Ática, 1-2, 1989.
Vv.Aa. Karl Marx. Biografia. Lisboa/Moscou, Avante/Progresso, 1983.
Vázquez,  A. S. Filosofia da praxis. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1968.
Venturi, F. El populismo ruso. Madrid, Alianza, I-II, 1981.
Verdès-Léroux, J. Trabalhador social. Prática, hábitos, ethos, formas de intervenção. S. Paulo, Cortez, 1986.
Vincent, A. Ideologias políticas modernas. Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1995.
Vranicki, P. Historia del marxismo. Salamanca, Sígueme, I-II, 1977.