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Soraya Uchôa Cavalcanti

uchoacavalcanti@bol.com.br

Recife, Julho, 1999.

 

UNIVERSIDADE FEDERAL DE PERNAMBUCO

CENTRO DE EDUCAÇÃO

PÓS-GRADUAÇÃO (MESTRADO) EM EDUCAÇÃO

DIDÁTICA DO ENSINO SUPERIOR

GERALDO BARROSO

 

 

OBSERVAÇÃO DE AULA

 

SORAYA ARAUJO UCHÔA CAVALCANTI

MESTRADO EM SERVIÇO SOCIAL

 

RECIFE, 21 DE JULHO DE 1999.

"Quem de três milênios,

Não é capaz de se dar conta

Vive na ignorância, na sombra,

À mercê dos dias, do tempo..."

(Goethe)

 

SUMÁRIO

 

  1. Apresentação 04
  2. Questões Preliminares 09
  3. Meios e Estratégias de Ensino 12
  4. Considerações Finais 16
  5. Bibliografia Consultada 18

1. Apresentação

A proposta do presente trabalho consiste em uma observação de aula sob a aplicação dos preceitos desenvolvidos em sala de aula no decorrer da Disciplina "Didática do Ensino Superior" ministrada pelo professor Doutor Geraldo Barroso no Mestrado em Educação do Centro de Educação da Universidade Federal de Pernambuco.

A tarefa do ensino é por demais interessante: "aprender a aprender". É um processo constantemente reinventado numa busca incessante do aperfeiçoamento técnico metodológico. Esse processo contribui de forma significativa no diferenciamento entre os homens e os animais irracionais.

A descoberta do novo e do "velho" reinventado se dá num movimento permanente e embora não se trate de algo novo ou mesmo inventado, aparece nos olhos daquele que descobre como se assim o fosse.

Jostein Gaarder em "O Mundo de Sofia" através da fala da própria Sofia, sua mais célebre personagem descreve o mundo e o processo de descoberta comparável a uma grande cartola, da qual salta um coelho, cada pêlo desse coelho está repleto de descobertas, contudo os mesmos pêlos que promovem sua descoberta ofuscam outras. Assim, a maioria da população continua vivendo na base do pêlo deste coelho sem saber ao menos que saiu de uma cartola.

Gaarder destaca ainda que existem aquelas pessoas que conseguem vislumbrar esse grande mistério subindo bem na ponta dos pêlos, questionando e redescobrindo esse movimento, essas pessoas, segundo ele, são os filósofos que após descobrir que as fronteiras do universo seguem até mais adiante, passam a buscar a atenção das outras pessoas e mostrar-lhes o que acabaram de descobrir.

Há que se colocar ainda que o filósofo para este autor é toda pessoa que questiona, que busca a verdade dentre todas que aparecem aos olhos de todos. Acrescenta-se dessa maneira os professores, os Assistentes Sociais, os Psicólogos, aqueles enfim que descobriram através do ensino, que processo ensino- aprendizagem exige uma gama de fatores e implicações, sobretudo uma aceitação por parte de quem ensina do desafio contínuo de que o conhecimento que possui não lhe pertence, mas ao Universo, e partilhá-lo implica em ver os homens enquanto sujeito desse processo, de que "aprender a aprender" é uma atividade, uma postura que serve tanto ao aluno quanto ao professor.

Ao ter essa postura e essas questões em mente, partiu-se para o desenvolvimento da presente proposta, que longe de se colocar como algo definitivo, acabado; Pelo contrário, vem indicar alguns dos possíveis caminhos desenvolvidos através do processo ensino- aprendizagem.

Através da experiência desenvolvida no decorrer da disciplina "Didática do Ensino Superior" algumas questões foram abordadas, dos quais suscitou a elaboração do presente trabalho. Assim, foi estabelecido um roteiro para a realização de uma "observação de aula" sob a luz das temáticas abordadas.

Como forma de visualização do que foi proposto, será colocado abaixo um roteiro para a observação da aula.

 

 

"A observação não deve ser meramente descritiva. Mas deve conter, também, uma descrição (condições/dimensões da sala, tamanho da turma, equipamentos disponíveis, etc.);

A observação – na medida do possível – deve contemplar informações "externas" que você considere relevantes para o desempenho do professor, tais como: nível sócio–econômico dos alunos ou localização da instituição de ensino;

A observação não é um "julgamento" ou avaliação do desempenho do professor, mas uma análise circunstanciada de uma prática didática, na busca dos parâmetros/concepções que guiam educadores e educandos numa situação determinada de ensino – aprendizagem;

A observação deve considerar principalmente (mas não unicamente): os meios e estratégias utilizadas e a postura/comportamento de professores e alunos. Devem ser analisados e submetidos à crítica os seguintes pontos entre outros:

 

No caso em que os objetivos não sejam claramente explicitados pelo professor, eles podem (e devem) ser deduzidos;

A ótica da observação é sempre pessoal, mas pode e deve considerar os elementos trabalhados pela bibliografia".

 

O trabalho encontra-se dividido em três partes: Questões Preliminares, no qual serão fornecidos os aspectos mais gerais quanto à observação; Meios e Estratégias de Ensino – Aprendizagem, relacionado ao momento em que serão contempladas questões mais específicas no que se refere a temática proposta; e finalmente as Considerações Finais, momento em que algumas questões serão colocadas sem a pretensão de encerrar a discussão que é por demais profícua.

2. Questões Preliminares

A aula escolhida para a realização de observação se refere a uma disciplina eletiva ministrada pelo curso de pós-graduação nível Mestrado em Letras e Lingüística localizada no Centro de Artes e Comunicação.

A disciplina "Elaboração de Resenhas, Artigos e Dissertações" é direcionada aos alunos do Mestrado e Doutorado interessados em desenvolver suas potencialidades associadas à forma e requisitos básicos para a elaboração de resenhas, artigos e dissertações.

Na aula observada haviam 23 alunos oriundos dos cursos de Mestrado de Antropologia Cultural, Letras (sua maioria), Sociologia, Serviço Social, Comunicação (Jornalismo) e Doutorado em Lingüística (em sua maioria por professores do próprio Centro de Artes e Comunicação).

O professor da disciplina possui além do Doutorado inúmeros textos publicados e um livro relacionado com a abordagem (forma de ver o conhecimento, desenvolvimento dos assuntos) dada em sala de aula.

O espaço físico é arejado e ventilado, possui vista para árvores e verde, duas janelas cobrem a metade da sala e dois ventiladores ajudam a circular o ar, quadro e giz servem de instrumentos valiosos no desenvolvimento das aulas.

Na sala não aparecem aparelhos de vídeo, TV ou retroprojetor, o que necessariamente não signifique a impossibilidade de utiliza-los.

O Centro de Artes e Comunicação (CAC) encontra-se localizado (inclusive enquanto parte integrante), no campus da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), o que permite a concentração na disciplina de um grupo bastante heterogêneo, tendo em vista que o acesso às atuais disciplinas do Mestrado possui algumas facilidades tais como: o aluno de um mestrado "X" pode matricular-se sem ônus em um mestrado "Y"; uma pessoa que não possua nenhum vínculo com a Universidade pode matricular-se como "aluno especial" (salvo alguns pré-requisitos); alunos de outras IES (Instituições de Ensino Superior) também podem se matricular em disciplinas oferecidas pelos Mestrados e/ou Doutorado da UFPE.

Dessa maneira, tanto a localização quanto as possibilidades de acesso às disciplinas oferecidas pelo Mestrado em Letras e Lingüística (quanto outros Mestrados*) no CAC, ampliam a possibilidade de uma turma heterogênea quanto à formação profissional, possibilitando de certo modo uma turma rica em diversidade de conhecimentos, favorecendo assim o aprendizado a curto e longo prazos.

Alguns dos participantes são bolsistas e possuem como alternativa de transporte um automóvel, facilitando a locomoção, o horário de chegada entre outros aspectos.

Há que colocar ainda que o horário de início da aula realiza grande influência, começar às 9:00 hs da manhã possibilita uma certa flexibilidade quanto à saída e organização própria dos alunos; desde passar na Biblioteca, quanto levar as crianças na escola quando for o caso, haja vista que a presença é predominantemente feminina entre os participantes (são dezoito mulheres).

O clima desenvolvido pela turma (possivelmente ao longo da disciplina) abriu espaço para a participação de alunos ouvintes (dois), dos quais uma era escritora pernambucana de poesias, Lucila Nogueira, tendo isso sido destacado pelo professor como um aspecto positivo.

Diante dessas informações, um tanto gerais, será buscado privilegiar alguns aspectos mais direcionados ao universo das estratégias e meios de aprendizagem, o que não significa dizer que essas questões não foram tratadas, mas que lhes serão dadas especial atenção.

3. Meios e Estratégias de Ensino – Aprendizagem

Durante a observação de aula foi possível estabelecer algumas considerações acerca das técnicas, métodos e parâmetros, dos quais serão destacados a seguir.

No início da aula é relembrado entre os presentes que a "matéria-prima" será fornecida pelos participantes. A justificativa está baseada na diversidade da origem dos cursos a que estão vinculados, coloca-se que poderia ser menos estimulante utilizar um padrão específico de texto para ser trabalhado em todas as aulas.

Dessa maneira, cada aluno foi incumbido de levar à sala de aula textos que estejam relacionados à proposta trabalhada, de acordo com os seguintes pré-requisitos: estar relacionado à temática proposta da profissão de origem; ser entregue com uma antecedência mínima de uma semana para a apreciação do professor; possuir um roteiro de trabalho para aquele texto (esse roteiro não precisa necessariamente ser submetido ao professor); não ser por demais extenso; ser entregue uma cópia a cada participante (o aluno é responsável por fotocopiar o material que ele mesmo vai trabalhar em sala de aula).

De um modo geral quem preparava e distribuía os horários, bem como o material, eram os professores. Os alunos participavam de forma ativa no direcionamento das atividades a serem desenvolvidas monitorando os resultados. Assim, a troca de papéis e de responsabilidades é algo vivenciado continuamente proporcionando um amadurecimento entre os presentes.

A matéria–prima utilizada no processo de ensino- aprendizagem foi buscada nos locais aos quais se destinam à formação. Assim, a leitura de resenhas, artigos e dissertações, bem como sua análise se fez como um pré-requisito fundamental e isso de certo modo foi bastante lembrado.

Portella (1991:25) destaca que a "proposta deve se incorporar aos conceitos trabalhados", assim falar e propor que se desenvolva habilidades no que se refere aos aspectos relacionados à elaboração de resenhas, implica em ler, analisar e produzi-las.

Dessa maneira, a proposta desenvolvida em sala de aula pauta –se nessa ótica, a exemplo disso, são solicitados durante a aula que sejam entregues resenhas individuais (pessoais) para que sejam discutidas pelo grupo.

De um modo geral a aula funciona dessa maneira, incorporando contribuições individuais às discussões coletivas. A aula se desenrola de maneira descontraída, sem tantas cobranças, o que não implica falta de responsabilidades dos participantes.

É possível que um fator desenvolva contribuição significativa nessa relação: o nível cultural e sócio–econômico dos envolvidos, além do fato de ser uma disciplina eletiva que contribui para o surgimento de um interesse específico em participar das aulas.

O grupo que participa das aulas trazem consigo uma motivação que facilita um breve desenvolvimento de uma Dissertação ou Tese, portanto precisam desenvolver a habilidade de monitorar a própria escrita e leitura.

É justamente monitorar a leitura e a escrita o objetivo tanto da aula quanto da disciplina como um todo. Assim, estabeleceu-se como forma de avaliação a elaboração de uma cheklist ao final da disciplina. Essa cheklist deverá contemplar diversas questões consideradas relevantes para o desenvolvimento do monitoramento por parte dos participantes em relação, seja a sua resenha, o seu artigo, a sua Dissertação, ou Tese.

O cheklist é um instrumento desenvolvido para o automonitoramento (ao "pé da letra" significa lista de checagem), o qual é utilizado como confirmação de algo proposto; São perguntas que o autor se faz para saber até que ponto a construção do que foi proposto corresponde ao esperado, verificando-se a necessidade ou não de refazer, redirecionar, ou questões assim.

A relação professor–aluno se desenvolve de forma cordial, respeitosa e embora existindo um certo distanciamento o acesso ao professor não possui dificuldades, ou seja, o aluno pode pedir orientação ou solicitar maiores explicações acerca do proposto (ABREU e MASETO, 1986 destacam questões como essa).

É por demais interessante destacar ainda que um dos alunos embora não pudesse comparecer à aula observada, enviou um material para ser discutido em sala de aula. É que segundo foi colocado na aula anterior, houve uma discussão, e essa aluna sistematizou os elementos principais que foram colocados e mandou para que os demais pudessem avaliar e fechar as questões.

Destaca-se ainda que embora num primeiro momento possa aparentar que o grupo teria se tornado tão auto-suficiente que dispensaria a presença e a atuação do professor, essa falsa imagem é logo dissipada na medida em que é o próprio professor quem direciona o andamento dos trabalhos e dos assuntos abordados. O que ocorre é que a responsabilidade é compartilhada entre os participantes, e ao que tudo indica, esse acordo foi fechado desde o início da disciplina. 

 

4. Considerações Finais 

 

Como algo que aparece anteriormente à presente discussão acerca dos meios e estratégias de Ensino – Aprendizagem é o que Canivez (1991) destacou quando se refere à questão da cidadania, colocando que o tipo de cidadania a que se tem e a que se busca vai depender do tipo de Estado a que se encontra vinculado. Assim, se o Estado for liberal, a cidadania será vista sob uma perspectiva liberal tendo como cidadão aquele que consome produtos e serviços de 2a e 3a categorias.

Por outro lado se o Estado for Democrático a cidadania também implicará numa perspectiva democrática de participação, de democratização dos espaços e do acesso a bens e serviços de qualidade.

Dessa maneira espera-se o acesso a uma Escola democrática, a uma disciplina na qual todos possuam iguais possibilidades de propor, rever, avaliar, repensar o seu dia e pensar em alternativas de análise. Existem limites e possibilidades, como toda experiência participativa, que venham a serem quebradas com o ritmo e o modelo habitualmente desenvolvido.

Contribuir para a formação dos cidadãos implica em divisão de poderes nos diversos espaços institucionais, seja em casa, na rua (o que tem se tornado cada vez mais difícil) ou na escola (um dos principais agentes formadores de opinião, bem como de socialização).  

 

5. Bibliografia Consultada

 

 

 

ABREU, Maria Célia de & MASETTO, Marcos Tarciso. O professor universitário em sala de aula. 5ª ed. São Paulo, MG Diretores Associados, 1986. 130p.

APG/UFPE – Associação de Pós Graduandos da UFPE. Relação dos Cursos de Pós Graduação da UFPE (Mestrado e Doutorado). Recife, 1999, Mímeo.

CANIVEZ, Patrice. Educar o Cidadão? Ensaio e Textos. Tradução de Estela dos Santos Abreu e Cláudio Santoro. Título Original: "Eduquer le citoyen?" São Paulo, Papirus, 1991. 241p.

GAARDER, Jostein. O mundo de Sofia. Romance da história da filosofia. Tradução João Azenha Jr. 14ª reimpressão. Título original: "Sofies verden". São Paulo, Companhia das Letras, 1996. 555p.

PORTELLA, Rosalva & CHIIANCA, Rosaly Maria Braga. Didática de Estudos Sociais. São Paulo, Ática, 1991, 96p.

 

 

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